Os blogs políticos de hoje de manhã (são 6.25 aqui na Alemanha - eu sei, nem precisa dizer) estão falando muito de Rashid Khalid (o link é da página dele em Columbia), professor do instituto de estudos sobre o Oriente Média na Universidade de Columbia. De todos os posts, o mais decepcionante é o Andrew Sulivan. É bem informado, tem links para informação importante, mas sabe, o que mata é ver que mesmo um cara inteligente como o Sullivan ainda acha que um intelectual, só por ter origens palestinas, deve ter sua vida esmiuçada pela mídia só porque um candidato babão como o McCain o acusou de ser anti-semita. Isso é porque para os Republicanos o ônus da prova de não ser anti-americano, anti-Israel, e pró-terrorismo fica com o acusado. Eu nunca li nenhum livro do Khalid, mas o que me irrita é essa atitude da mídia. Ele devia processar o McCain, mas talvez não queira fazê-lo agora para não gerar mais tumulto nos últimos dias da campanha. Sei lá.
Tem um post excelente do John Cole sobre o assunto aqui.
Visto no site do Globo: A PM do Rio havia se recusado a pagar pensão ao companheiro homosexual de um policial militar. Sérgio Cabral, de quem já falei tão mal aqui, deu ordem para que a lei do funcionalismo seja cumprida e a PM pague a tal pensão (aqui, no bom blog Caso de Polícia). Eu não gosto do Sérgio Cabral, apesar de não achar o governo dele esta tragédia toda. Mas desta vez ele me fez lembrar a diferença que é ter ele, e não os garotinhos, no governo do estado.
Enquanto muita gente gosta de falar do quanto estereótipos são falsos, eu confesso que o que me fascina mesmo é o que eles têm de verdadeiro. Eu me lembro até hoje de quando eu dividia a casa com dois gregos que, quando voltaram do cinema após assistirem My big fat Greek wedding, disseram que aquilo era só estereótipo, uma caricatura injusta. Isso vindo de dois caras que pareciam ter saído do filme direto para a minha casa.
Duas semanas atrás, indo para Roma com a Ryanair (rima para jingle: evite, se puder), aqui no aeroporto de Baden Baden, pesaram minha mala, pesaram minha bolsa de mão, me fizeram pagar 60 euros por excesso de bagagem e ainda fizeram com que eu me sentisse culpado. Ontem em Roma, a moça do guichê disse que estudava literatura portuguesa na universidade, enquanto deixava de conferir a balança e emitia meu cartão de embarque. Se isso fosse um roteiro, o alemão e a italiana não teriam sido tão bom atores.
Dar nome a lugares públicos é uma arte. Poucos são tão bons nissos quanto os italianos. Não é só que cada cidadezinha tem um viccolo dell’amore. É que aqui os nomes são tradicionais, nascem do povo que vive no lugar, e por isso refletem a história do país. Assim, saindo de Roma, a gente passa por estações de metrô do tipo ‘Re di Roma’, ‘Arco di Travertino’ e minha favorita, ‘Porta Furba’ (algo como porta malandra). Depois o ônibus passa pela via Tuscolana, via Ardeatina, vira na via Lucrezia Romana, e por aí vai. O Rio e Niterói também tem nomes legais: Icaraí, Copacabana, Botafogo, Realengo, Santa Rosa, etc. Mas existe essa tendência moderna (que também começou por aqui) de dar nome de “notáveis” como Jornalista Irineu Marinho, Ministro Otávio Kelly, etc.
Bom, estou aqui no aeroporto esperando para embarcar rumo a Baden-Baden, para de lá pegar um ônibus até Heidelberg. Estou digerindo o resultado da eleição para prefeito no Rio, onde o Gabeira perdeu por pouco mais de 1% (uns 50 mil votos, pelo que li). Aqui vão algumas impressões:
* O resultado da eleição foi muito melhor do que eu imaginava 3 meses atrás. Eu esperava o embate entre o coisa ruim e o capeta, algo como Jandira e o Crivella. Gabeira verus Paes é realmente um grande resultado, em comparação, por mais que eu não goste de Duduzinho. A verdade é, acho que eleitores de Gabeira não teriam problemas em votar no Paes contra o Crivella, e vice-versa.
* Paes é uma não-entidade, e confirmou o status do governador Cabral como seu igual. Apoio do governador, da máquina do PMDB, do presidente da República mais popular da história, e passaram sufoco. Lembrem-se: ninguém esperava o Gabeira ir tão longe.
* Depois de décadas, o Rio de Janeiro econtrou uma liderança política progressista. Me desculpem, mas a esquerda do Rio não é progressista. Seus ideias são dos anos 60, e não percebeu que o tempo passou. Não se compara à direita, porque nada se compara à direita do Rio. Gabeira mostrou ser um político maior do que a política carioca, e sai engrandecido. O que ele vai fazer com esse capital, é uma incógnita, mas o discurso de concessão de Domingo à noite é um bom sinal.
* O PT do Rio está mal, muito mal. Há anos serve de “minha puta” para os projetos políticos do PT nacional-paulista, e com isso já apoiou candidaturas inesquecíveis. Molon, que ensaiou se posicionar pra lutar pela liderança do partido, mostrou-se pusilânime: escondeu-se atrás da mesa e nem apoiou Paes e nem emitiu sua opinião. Sua situação era difícil, o cara é novo e quer se fazer no partido. Podia ter feito isso mostrando ter entendido o que o Rio precisa.
* O Rio está na merda. Me desculpem, mas cada vez que vou ao Rio a cidade está pior. Crime, pobreza, sujeira, caos urbano. Qualquer prefeito menos do que espetacular seria um desastre. Katrina se aproxima.
* No plano nacional, a eleição de 2010 se candidata a ser uma reprise da eleição de 2002. As mesmas forças (quem pensa que o PMDB já está alinhado com o PT é melhor pensar de novo: Quércia vai jogar seu peso atrás do Serra, dividindo o partido para garantir vitória em qualquer cenário), os mesmos temas. Uma pena, eu teria orgulho de votar no mesmo candidato que o na prática, fosse ela a Dilma com um vice Aecista ou o Aécio com um vice Pallocista.
Eu tenho que admitir, uma das coisas mais interessantes de estar neste mosteiro é o fato de ter convivido com os monges (homens e mulheres) nestes dias. O monastério de Bose é um monastério ecumênico, mesmo se a grande maioria dos que vivem aqui é de católicos. A fundação só tem 40 anos, e a maioria dos monges é jovem, entre 30 e 35 anos, quase todos com quem conversei está aqui entre 5 e 15 anos.
A gente tem que respeitar os caras: acordam às 5.30, a primeira missa é às 7, depois vão fazer seus trabalhos. Alguns trabalham no campo, onde eles têm diversas plantações, outros na editora do monastério (publicam uns 25 livros por ano, me disseram) e outros trabalham na administração. Todos se revezam na limpeza e cozinha. No almoço normalmente eles se sentam conosco, dois monges por mesa, um em cada lado. Pedem graças pela comida, nos servem, passam o vinho e a água. É tudo muito simples, e bonito também. São todos muito bem educados, lêem muito e fazem cursos o ano todo. Historiadores vêm aqui para dar aulas e pequenos cursos, e eles conhecem um monte de intelectual importante. O mais impressionante é que tudo é mantido sem financiamento de instituições ou particulares, mas só com doações e o trabalho deles mesmos. Nesse sentido, é um miagre que tenham durado tanto tempo, e pelo visto vão durar ainda mais.
Ok, eu admito, apesar de todas as minhas reclamações, essa foi uma experiência muito interessante. Amiano irá parar de escrever agora, antes do último café da manhã sem manteiga e com café de máquina, e só ligará o computador no trem se vir alguma coisa MUITO interessante.
Bom, caso alguém esteja interessado, apresentei meu paper, e foi tudo bem. Sobrevivi. Fizeram várias perguntas, recebi vários cumprimentos, tapinhas nas costas, estas coisas. Missão cumprida, e com isso tiro um peso enorme das costas. As últimas semanas foram muito estressantes, escrevendo um capítulo do livro e tendo que preparar este paper, sobre um assunto que não domino. Mas agora passou. Só resta preparar uma palestra para fazer em Heidelberg e um artigo para ser publicado aqui na Itália, tudo para as próximas 3 semanas...
Abaixo vão alguns posts escritos on the road. Estou no mosteiro de Bose, Norte da Itália, para uma conferência, e achei que não poderia deixar de fazer a crônica destes meus dias de vida santa. Enfim, leiam, e divirtam-se com meus perrengues cotidianos.
O primeiro dia não começou muito bem. O café da manhã aqui envergonha a Itália. Pão meio fresco, meio dormido (era tão cedo que o pobrezinho devia estar cochilando). Nada de manteiga, só geléia. E o café, aquele de máquina, você aperta um botão e vem aquele troço aguado. Um horror. Para compensar, aproveitei que a comida era ruim e fiz uma caminhada até a igreja de São Segundo, perto daqui, uma igreja românica (século XII) muito simpática. O lugar é muito bonito, e parece um set de O Nome da Rosa, com a neblina e os monges cantando.
Amanhã de manhã apresento meu paper. Já roi todas as unhas, e estou me preparando para a dor de barriga. Ossos do ofício. Descobri que aqui tem internet wireless em uma sala (se é numa sala só, porque fazer wireless? Mistérios da fé...). Se der amanhã aproveito e vejo meu email e posto estas mal traçadas.
Ah sim, hoje ouviram minhas preces, e me deram uma maçã. O problema é que ela abriu meu apetite.
A vida no monastério de Bose não parece ser mole. Nem bem chegamos, um monge foi nos levando para conhecer o lugar. Ele mostrou a igreja, e depois a área onde ficam os nossos quartos. Aí disse que o jantar seria servido dali a 5 minutos, pois ao domingo tem missa às oito (é um monastério, tem missa 5 vezes por dia). Nosso grupo (somos uns 40) foi dividido em três salas, e os monges e monjas comeram com a gente. Sopa, salada, e mortadela. Na saída, um professor me disse: e agora, a gente sai pra jantar? Não foi tão ruim assim, a sopa foi de capeletti, e estava boa. A salada era com verduras da horta deles mesmo, como deve ser em um monastério. Mas são 22.30 e eu estou com fome. Ah, mais uma coisa: acabei indo à missa, o que não faço costumeiramente. Foi muito bonita, toda cantada, vozes masculinas e femininas. Eu me sentei bem no fundo, na esperança de não atrair atenção. Qual não foi minha surpresa ao descobrir que no final todos os monges se encaminham pra onde eu estava, a igreja toda apagada (eu pensei: fudeu), e começam a cantar e rezar de frente a uma imagem de Nossa Senhora. Foi bonito, e agora posso dizer que já assisti a uma verdadeira missa em um mosteiro. Bom, só não sei pra quem é que eu posso dizer, porque não é exatamente uma coisa da qual se possa tirar onda. Mas foi bonito. E eu topo assistir mais uma missa se me derem um biscoito. Uma maçã. Qualquer coisa.
Vou dormir, porque não tem televisão, não tem álcool e nem telefone. O celular não funciona direito. E já fui avisado de que os sinos badalam às 5.30 da manhã, e que o café vai até as 8.
Estou aqui no trem rumo a Milão, onde pego a conexão para Santhiá, onde alguém virá me buscar para me levar ao Monastério de Bose, onde passarei os próximos três dias em uma conferência.
A conexão Roma-Milão por trem é ótima: Eurostar a cada hora. Como os organiadores estão pagando o bilhete, e a diferença é só de 10 euros, resolvi viajar de primeira classe. A diferença de qualidade nem é tão grande. Existem vários tipos de Eurostar, e esse é muito bom, e rápido também. Não é tão sofisticado quanto o ICE alemão, mas o serviço é melhor: já passaram aqui distribuindo jornais (eu já tinha comprado) e café, suco e biscoito. Já estreei o banheiro, que é bem limpo e espaçoso. Mais do que meu apartamento em Heidelberg.
No momento ainda não vi nada digno de nota, fora a paisagem. O trem passou por parte da Umbria, entrou na Toscana, vai parar em Florença, segue para Bolonha e a parada final é Milão. Se acontecer alguma coisa eu deixo meu registro aqui.
Update: de Florença até Milão a paisagem é um tédio só. Do meu lado no trem tinha um casal de senhores muito simpáticos, que liam um livro de contos juntos. Ela lia um conto, passava pra ele, que lia o mesmo conto e depois eles discutiam sobre o que leram. Deve ser o método mais ineficiente de ler um livro. Chegando em Milão, tudo mudou. Ao invés de chata, a paisagem ficou feia, até chegar em Santhiá, onde me pegaram para ir pro monastério. Aí sim, ficou bonito. Minha dica: alugar um carro e dirigir pela província de Turim (onde estou agora, não na cidade).
No meio de uma greve da polícia civil o Serra teima em partidarizar a sua própria incompetência. E aí a polícia militar vai lá e dá a maior demonstração de incompetência que eu já vi. Não é só que estes caras merecem perder a eleição mesmo. É que eles merecem ir pra cadeia.
Estou preparando uma apresentação para fazer em um seminário sobre Cristianismo e Paganismo na Antiguidade Tardia, que vai acontecer em um mosteiro em Bose, no norte da Itália. O motivo verdadeiro para ir lá é que normalmente estas são excelentes ocasiões para se comer e beber muito, pois os italianos sabem MESMO como tratar um convidado. Mas também ajuda o fato de que vou finalmente conhecer Claude Lepelley, Jean-Michel Carrié e, mais importante, Peter Brown, o historiador que fez com que eu definisse o que eu queria estudar pelo resto da vida.
Bom, para preparar a apresentação eu resolvi fazer uma visita à basilica de São Pedro, o que significa ir ao inferno e tentar voltar vivo. Primeira etapa: furar uma fila com 900 pessoas. Ok, cumprida. Segunda etapa, ir à tumba dos papas, procurar um sarcófago de Petrônio Probo (senador romano que viveu no final do sécuo IV d.C.). Achado o sarcófago, tirar uma foto escondido dos seguranças. Feito. Passar batido em frente do túmulo de JP II, lotado de peregrinos polacos. Feito. Entrar na basílica, ignorar a Pietà, e ir direto ao tesouro de São Pedro (lado esquerdo da basílica). Feito, com o coração partido por causa da pietà. Pagar 6 euros, fingir que estou ouvindo o guia eletrônico, e ir direto até onde está o sarcófago de Júnio Basso (senador do século IV). Tirar uma foto escondido dos seguranças (isso é alto nível acadêmico!). Feito. Voltar pra biblioteca, baixar as fotos pro computador. Feito. Descobrir que, diante das condições adversas em que as fotos foram tiradas, elas saíram uma bosta. Feito. Procurar pelos mesmos sarcófagos no google, baixar as fotos e usá-las como slide. Feito.
Minha sorte mudou consideravelmente nos últimos dias. Além de emails me oferecendo desconto na compra de Viagra, e uma oferta imperdível para ajudar o filho de um ditador africano a recuperar 72 milhões de euros, acabo de me registrar para receber uma caixa de perfumes e cremes do Boticário, que vou dar pra patroa. E tudo o que tive que fazer foi dar meu endereço para envio da caixa e dados do meu banco e cepf pra provar que eu existo!
O Nobel de Economia vai para aquele que é provavelmente o mais famoso dentre os economistas vivos, Paul Krugman. A carta explicando porque ele foi premiado está aqui, e o blog do Krugman é esse aqui. O Marginal Revolution tem um bom post com links e comentários aqui.
Morreu Joerg Haider, esta manhã, quando dirigia em alta velocidade e tentou fazer uma ultrapassagem irregular. Haider era um fascista, filho de pais fascistas e morreu de maneira tão estúpida quanto viveu, e o mundo não irá sentir falta dele. Ele deu seu apoio à intolerância contra os diferentes, à exploração econômica dos imigrantes que aceitam condições de trabalho sub-humanas por medo de serem expulsos do país, ao ódio e à violência de uma juventude estúpida e mimada, e capitalizou o medo das pessoas ignorantes de boa e má vontade. Ele ia encontrar sua mãe, no dia do seu aniversário de 90 anos, e apesar de ela ser fascista e de ter criado um monstro como filho eu sinto muito por ela, mesmo se não muito. Mas ele já foi tarde, e devia ter levado alguns de seus colegas consigo.
Só na marola... É a terceira vez que a Bovespa teve negociações interrompidas, o Globo Online diz que o ibovespa já caiu mais de 10% hoje, e a posição do governo é que a crise não atingiu o Brasil? Mas eu mal posso esperar pelos próximos dias...
Estou aqui em Darmstadt, cheguei na quarta e volto pra Heidelberg hoje. A cidade foi arrasada na segunda guerra, e por isso não possui muitos atrativos, além de alguns edifícios, pessoas simpáticas e boas universidades técnicas. Mas o que me trouxe aqui foi um encontro da Fundação Humboldt, a fundação que financia meu pós-doutorado. Nós somos umas 100 pessoas, só desta parte da Alemanha (digamos, o quadrante sudoeste). Historiadores, físicos, arqueólogos, bioquímicos, climatologistas, etc. Da Austrália, dos EUA, da Itália, da Rússia, do Brasil (somos 4), da China (mais de 30! a maioria fazendo química! já dei o email do seu Ronaldo pra todos eles...).
Eu acho que já falei da Humboldt aqui, mas preciso falar de novo. Os caras são excepcionais. Não só porque pagam muito mais do que um pós-doutorado alemão, com a vantagem adicional de ser isento de impostos. Mas porque o objetivo deles é realmente incentivar excelência na pesquisa (putz, to até incorporando a linguagem deles) e cooperação internacional. Então, no primeiro dia fomos divididos em grupos de acordo com os países de origem, para discutir a bolsa, o que a Humboldt oferece, etc. Os representantes da AvH que estavam conosco fizeram questão de incentivar-nos a pedir extensões para a bolsa, dizendo que é um direito nosso (minhocas na cabeça altamente agitadas agora...), falaram de como nos ajudarão a retornar para a Alemanha no futuro para novos períodos de pesquisa, etc.
Mas o mais legal foi que o objetivo deles de nos impressionar com a qualidade e variedade das pesquisas que eles apoiam foi atingido. No primeiro dia, tivemos uma palestra de um Felix Engel, que dirige um mega projeto apoiado pela AvH sobre regeneração de células do coração após infarto. Resumindo, não elas não se regeneram e você está ferrado. Sim, ele acha que dá pra fazer elas se regenerarem. Ele tem uma bolsa que é o novo xodó da Humboldt, é uma verba de 5 milhões de euros por 5 anos mais um salário de 180 mil euros por ano (mais do que um professor titular ganha na Alemanha) para trazer jovens cientistas de universidades americanas e inglesas. No dia seguinte, fomos divididos de acordo com nossas grandes áreas, e tivemos apresentações de papers sobre alguns dos projetos. Um Nigeriano estudando a literatura nigeriana e a identidade nacional, uma americana estudando a arquitetura Maia, e uma canadense estudando a interação entre soldados alemães e a popuação francesa durante a ocupação nazista, o que foi muito interessante. O que é mais legal é ver uma fundação alemã, pública, gastando tanto dinheiro em trazer pesquisadores de outras partes do mundo, fazendo de tudo para que nós nos sintamos felizes, que tenhamos independência científica e liberdade intelectual.
É fascinante ver como o debate no Brasil às vezes fica viciado. Isso torna muito difícil reconhecer a complexidade do jogo político. O governo venceu as eleições, acho que nisso qualquer pessoa com conhecimento de matemática pode concordar. Mas a esquerda não venceu as eleições. Vale lembrar, o PMDB faz parte da base do governo, como gosta de dizer o Idelber Avelar, mas eu estou à esquerda do PMDB. O Kassab está à esquerda do PMDB, que aliás está por toda a parte, acho que vi uns dois deputados aqui na Alemanha ontem à noite. O PT vai perder São Pauo, ao que tudo indica, e essa será uma derrota fragorosa, por causa de tudo o que se disse de Marta e do PSDB. O PSDB perdeu, o Serra venceu, a Marta foi rifada. O PT vai apoiar o Paes no Rio. Alguma dúvida de que o Paes irá rifar o PT depois de eleito? E agora o Noblat diz que o Gabeira tem chances... Em Niterói foi o PDT quem venceu. Mas venceu batendo o PT (que aliás teve 8 anos para destruir a cidade, e verdade seja dita, cumpriu a tarefa 'con gusto'). Vitória da esquerda? O Jorge Roberto da Silveira foi apoiado por todo mundo, à direita e esquerda. E no Rio vai apoiar o Gabeira, que não é apoiado pelo Lula nem pelo PT. Vitória da esquerda?
O que é que faz a vida política brasileira tão complicada? Eu acho que a divisão entre esquerda e direita ainda existe, e tem relevância. Mas partidos, se excluirmos os mais comprometidos ideologicamente, não se baseiam nesta divisão para fazer suas alianças e estratégias eleitorais. Seria o caminho natural os partidos de esquerda se unirem, mas seria ainda mais natural, em termos programáticos, o PT e o PSDB se unirem. Não acontece porque conveniências políticas são importantes, porque sem realpolitik não se vence eleição e não se conquista o poder (ou uma parte dele). O PT aprendeu isso com Lula, e parabéns pra eles. O PSDB fez isso com FHC, e o Serra e o Aécio estão fazendo o mesmo. Não gosto de ir contra a corrente nesse ponto, pois a companhia não é boa, mas eu acho que mais do que reforma eleitoral, o que a democracia e o sistema partidário brasileiros precisam é de tempo.
ps: E o PT do Rio declarou apoio ao Paes, sem que seu candidato a prefeito aparecesse publicamente.
Eu havia escrito uma longa e detalhada análise sobre o Partido Republicano, sobre como o partido perdeu seus princípios em termos de política econômica, política externa, etc. Mas percebi que isso tudo é inútil quando se assiste o vídeo abaixo. Não é só porque McCain se refere aos cidadãos americanos como "my fellow prisoners", o que revela muito. É principalmente porque, quando ele diz que vai por um fim no déficit fiscal (um dos fundamentos de qualquer poítica econômica republicana - e que o Clinton sabiamente havia tomado para o seu governo), a platéia aplaude, mas dá pra ver que Sarah Palin:
a) não está nem um pouco interessada;
b) não faz a menor idéia do que é que ele está dizendo;
c) está se perguntando o que é que isso tem a ver com Deus.
E a eleição no Rio está chegando, e segundo o Datafolha o Gabeira e o Crivela estão embolados na luta pro segundo turno. Gabeira vem crescendo de maneira consistente em todos os grupos etários e em todas as camadas sociais, mas esse crescimento é bem mais rápido entre eleitores jovens, mais educados, e com maior renda. O eleitorado do Crivella é o oposto, mas o fator relevante é que ele tem apresentado pequena queda em quase todos os grupos sondados. O que isso quer dizer? Simplesmente, que ninguém sabe o que vai acontecer, mas eu acho que o Gabeira pode se beneficiar muito do voto útil dos eleitores de esquerda. Daí a decisão de investir no eleitor de classe média ser uma boa idéia. Isso poderia levá-lo ao segundo turno, mas não garante uma vitória contra Paes, que tem o apoio do governador para se fazer ouvido entre os eleitores mais pobres, menos escolarizados e mesmo entre a classe média. Mas a esperança é a última que morre.
Em um mundo no qual criminosos têm uma agenda político-religiosa de dar medo, é reconfortante descobrir que os piratas que sequestraram um navio russo cheio de armamentos pra África são pessoas absolutamente razoáveis, motivados por interesses perfeitamente racionais. Essa matéria do NYT faz com que estes piratas soem mais normais do que Sarah Palin.
Eu ando mais enrolado do que nunca, mas não podia deixar o tempo passar e não declarar que meu voto vai pro Gabeira. Eu sempre votei nele pra deputado federal, e acho que é de longe o melhor candidato pro Rio. E o site dele é muito legal! Mas vamos ser sinceros: a propaganda pra TV do Gabeira pode ser um espetáculo na forma, mas não me agrada no conteúdo.
O problema é que a propaganda acaba confirmando a idéia de um candidato limitado, de uma área geográfica específica (mesmo que tenha a declaração de voto de uma tijucana e de uma dona morando em Araruama). Gabeira é mostrado entrando em uma escola cheia de mauricinhos, em um boteco de grife na Zona Sul, e horror, a bela Cynthia Howlet afirmando pra câmera que "a gente está cansado de propostas, propostas, e propostas. Então, pra mim, não interessa a proposta, interessa o caráter da pessoa (...)". Isso que dá, colocar apresentadora do Sportv pra falar de política, já dizia o buldogue do meu amigo. Mas existe a esperança de Gabeira ir pro segundo turno, e se chegar lá ee irá competir pelo mesmo voto que o Eduardo Paes, e tem chances.
Disclaimer: Amiano Marcelino nunca votou no Rio, mas em Niterói. Lá, meu candidato é o Jorge Roberto, por absoluta falta de opção. Bom, pra esse disclaimer ser sério mesmo, preciso confessar que não voto desde 2000. Ou seja, essa bagunça que está aí, leitor, não tem nada a ver comigo...