Grande final de semana por aqui. Com o tempo bonito, a Sra Amiano e eu decidimos sair para uma caminhada ao longo do Neckar. Nosso dia acabou tomando um rumo que não esperávamos. Nossa idéia era nos juntarmos a um dos vários tours do Neckar que podem ser feitos a bordo de um barco deste na foto, que vai rio acima e abaixo, com várias pessoas. No caminho, no entanto, passamos por um lugar onde se pode alugar pedalinhos e lanchas pequenas, e achamos a idéia muito mais interessante. Apesar de a lancha ser pequenina, não correr e não podermos ir muito longe, foi muito mais legal e romântico assim. Eu me senti o próprio magnata, dirigindo meu próprio barco (ok, só por 40 minutos, e saiu 18 euros, mas valeu a pena). A vista da cidade, então, é muito bonita.
De lá decidimos abandonar as hordas de turistas e aproveitar o tempo maravilhoso que estava fazendo para explorar o Odenwald, a famosa floresta de Heidelberg que Mark Twain gostou tanto. Foi um espetáculo. A caminhada começa com o "caminho dos filósofos", um caminho aberto através dos vinhedos e da floresta que ocupavam este lado da montanha no início do século XIX. Existem duas teorias para o nome: uma é positiva, de que ele se deve ao fato de que os professores da universidade vinham aqui para relaxar e refletir sobre suas pesquisas. A outra teoria é mais interessante. O nome teria sido dado pelos camponeses da área, que gozavam dos habitantes da cidade que vinham aqui - e estavam claramente fora de seu elemento. E que elemento! A floresta é linda (fotos aqui e aqui, e o caminho é bem marcado. Do caminho temos vistas magníficas da cidade, e principalmente do castelo.
Mas isso não é tudo. Pelo caminho passamos pelas ruínas do claustro de S. Stephen, do século XII, por um anfiteatro nazista e as ruínas de uma Igreja construída no século IV d.C., reconstrída no século IX, ampliada, que por sua vez ocupava o lugar de um templo romano que ocupava o lugar de um santuário céltico: o monastério de S. Michael. Para completar tudo, quando voltamos para casa ainda vimos alguns dos exemplares da colônia de papagaios que vive no campus da universidade (duvida? Tem foto pra provar!). No final das contas, andamos um bocado, como dá para ver no Google Maps.
Não importa o que se pensa de Bill Clinton (e eu acho o cara o maior), uma coisa não se pode negar: o cara é um mestre da política. Não precisando provar mais nada, e depois de algumas mancadas, ele vai e faz esse discurso na convenção democrata:
Uma coisa que se aprende lendo os textos de Santo Agostinho, São Jerônimo e cia, é que a Igreja Católica não tem nada a ver com a idéia de amar o próximo. O negócio é amar a Deus sobre todas as coisas, vocês sabem. Mas esse debate de supremo sobre o aborto de fetos anencefálicos (é assim que se diz?) acabou de me mostrar algo formidável: até as Igrejas Evangélicas podem ser mais progressistas e preocupadas com o bem estar da mãe do que os discípulos de Bento XVI. Tirado do Noblat: "Já os evangélicos, representados pela Igreja Universal do Reino de Deus, foram favoráveis à descriminalização do aborto de anencéfalos, sob o argumento de que, nesses casos, a saúde da mulher deve prevalecer, lembrando que a gravidez de fetos anencéfalos é, em sua maioria, uma gestação de risco para a mãe."
O debate sobre a eleição em São Paulo é excelente. Comparado com o que acontece na eleição do Rio, o que vemos ali é uma campanha de verdade. Isso não quer dizer que tudo seja correto, no que tem sido dito. A situação parece ser a seguinte: Marta passou de 36% para 41%, Alckmin caiu de 32 para 24%, Kassab passou de 11 para 14% (a notícia é velha, e os números foram mastigados pelo Noblat. A lógica é que o Alckmin só pode subir com os votos do Kassab, e vice versa. Isso provavelmente é verdade, ao menos em parte. Mas existe uma coisa que não está clara para mim, que acompanho de longe sem assinar os jornais locais: quando foi que a Marta utrapassou o teto de eleitores "estáveis", ou seja, aqueles que votam nela por ideologia ou ligação direta ao PT? Porque todos os outros ainda podem ser roubados, e deveriam sê-lo. Eu não gosto da Marta, e acho que ela tem vários telhados de vidro (ou um só, mas grande): aumentar impostos é uma coisa. Outra coisa: ela já foi prefeita de São Paulo. Mesmo o melhor prefeito do mundo pode ser criticado por ser prefeito de SP, simplesmente porque nenhum governante consegue dar conta de todas as demandas dos habitantes da cidade. Então, eu faria um ataque à sua imagem de arrogante, faria um ataque à sua política de tomar dinheiro da classe média pra financiar cofre do partido, e bateria na administração anterior dela (e torceria pra ela não conseguir gritar "bilhete único" mais alto do que minhas propagandas, porque aí ela ganha mesmo, e com razão). O Lula apóia todo mundo, e sua influência em SP me parece bem mais limitada do que seria em uma cidade pequena. Tanto o Alckmin quanto o Kassab estão em boa situação para fazer esse tipo de campanha. Os dois podem tirar votos da Marta, pelo menos pra for;ar ums egundo turno. Ah, sim, um problema básico: para chegar a ser eleitos, eles teriam que ter propostas políticas dignas de serem chamadas "propostas políticas". Aí é mais complicado, será que eles têm?
É melhor o Itamaraty e o Bope irem se preparando para salvar um cidadão brasileiro das garras... do quê mesmo? Bom, não sei se o Uzbequistão está na lista de amigos do Brasil ou não, mas o fato é que o Rivado acaba de assinar um contrato com o Bunyodkor, por dois anos. Se ele soubesse que aquela palhaçada de fingir ter sido agredido e se jogar no chão em plena copa do mundo seria punida deste jeito, tenho certeza que ele teria pensado duas vezes antes de fazê-lo...
Já faz uns dois dias que esta matéria está na lista das mais lidas do New York Times. Ela fala dos problemas causados por turistas ingleses, especialmente jovens, em resorts na Espanha, Creta e Chipre. A garotada sai de casa e bebe demais, o que leva a uma série de problemas sociais, de brigas na rua, a crimes sexuais e consumo de drogas. Isso não é um problema novo, e não dá pra negar, que quando um grupo de ingleses começa a beber é difícil pará-los. A imprensa inglesa, e os líderes políticos, fazem muito desse problema, mas uma coisa que não dá pra negar também é que ele não é novo, e não é exclusividade dos ingleses.
Uma atração turística interessante aqui em Heidelberg é o Studentenkarzer, a prisão estudantil da universidade. A prisão foi usada ´desde o início do sécuo XVIII, e só deixou de hospedar estudantes arruaceiros em 1914, quando o governo alemão descobriu que esse tipo de pessoa era perfeitamente adequada para viver em liberdade, dentro de uma trincheira. Os estudantes tinham um estatuto todo próprio, não podendo ser presos pelas autoridades policiais (ao menos isso é o que dizem, mas as autoridades universitárias parecem ter sido restritas a crimes de embriaguez, arruaça, desrespeito às mulheres, estas coisas). Da prisão eram capazes de frequentar as aulas, fazer os exames, recebiam comida enviada de tavernas pelos seus amigos, etc. Ser preso era uma fonte de prestígio, e os estudantes costumavam pintar seus perfis nas paredes dos quartos, com seus nomes e data de sua prisão; esta foto é uma boa ilustração. Meu grafite preferido é este, comemorando a prisão de Oswald Loeb, por 5 dias, em 1900: os oficiais são mostrados em procissão, ridicularizados. O problema é este: os estudantes sabiam que não havia um preço a ser pago por seu comportamento, e isso incentivava seu código de ética um tanto quanto particular.
Se existe mesmo um Ocidente, agora é que as coisas ficaram mais difíceis. A Rússia acaba de reconhecer a independência da Ossétia do Sul e da Abkhazia. A Inglaterra já divulgou uma nota muito dura, a França reclamou e os EUA estão aumentando seus sinais políticos (ainda relativamente vazios) de que estão insatisfeitos com a situação: vão enviar Dick Cheney, que sempre foi crítico da Rússia, e pelo visto até a mulher do MacCain vai lá, presumo que não seja para comprar casas. Nenhum sinal da China, como era de se esperar. Mas uma coisa eu acho interessante, e gostaria de ter mais informações sobre isso. Bastaria a União Européia e os EUA decretarem um embargo sobre estas regiões, botarem pressão na Turquia e outros aliados na área para fazerem o mesmo, mesmo que de forma velada, e a coisa ficaria bem mais preta para estes projetos de Estado. O problema é saber se a Europa está a fim de comprar briga comercial com a Rússia, de quem importa muito petróleo, e se o Ocidente tem cacife para bancar os outros Estados na região.
Chance de sair de casa para ir ao cinema assistir o próximo Harry Potter: 1 (nunca se sabe, pode estar fazendo calor)
Chance de sair de casa para ir ao cinema assistir Hari Puttar (se a Warner não conseguir impedir o lançamento do filme): 10
Se você está sem nada para fazer, se está de saco cheio do que está fazendo ou se simplesmente está lendo Bread for the People, de Emin Tengström, então eu recomendo dar uma olhada neste artigo de Roger Simon, Relentless. O artigo busca explicar como é que Obama derrotou Hillary nas primárias, e é bem interessante. Obama montou uma equipe de campanha profissional e experiente (o que é irônico, considerando-se que a Hillary é quem explorou esse tema na sua campanha), planejou cedo, considerou a possibilidade de dificuldades e imprevistos, e aplicou dinheiro e recursos com prudência. Hillary fez o contrário.
O problema com o artigo é que, depois do primeiro parágrafo (o negócio é longo, 24 páginas, mas de leitura rápida - compare com o Tengström...), tudo o que o autor faz é repetir esse argumento, como um mantra, sem apresentar dados realmente novos. Esse é um problema típico do jornalismo moderno, eu acho, o fato de que ele é muito preso a fórmulas explicativas que não explicam o essencial - será que Hillary cometeu seus erros realmente porque é arrogante - será que é só isso? - e que se contenta em reportar as formas, ao invés de analisar os conteúdos.
Um bom exemplo disso foi a recente declaração do presidente Lula, de que os estudantes brasileiros são babacas. Bom, antes de mais nada, eu sou brasileiro, de certa forma ainda estou estudando, portanto preciso dizer: babaca é a mãe. Mas veja por exemplo o que aconteceu: a imprensa deu manchete, escandalizada (um exemplo). Mas a substância do que Lua disse não foi realmente analizada. Senão, vejamos. Segundo a reportagem da Folha, a primeira vez em que ele usou essa expressão foi nesse contexto: " "Quando criamos o Prouni tinha um tipo de gente que fazia discurso assim contra o governo: "ah, estão privatizando a educação", "ah, estão dando dinheiro para universidade particular". Ou seja, os babacas não percebiam que estávamos fazendo uma revolução na educação brasileira", afirmou." O que a imprensa fez, focalizando no expletivo, foi repercutir a afirmação de que o PROUNI é uma política revolucionária e bem sucedida, quando existe uma bibliografia enorme sobre crédito educativo, school vouchers, etc (eu, que não sou especialista, não a conheço, mas o que existe de artigo sobre o assunto... até o the West Wing teve um episódio sobre isso!). O PROUNI é no mínimo controverso, e deve ser, e deve ser debatido, e uma parcela de gente de respeito acha que se trata de dar dinheiro para universidades particulares, que aliás fazem um lobby fortíssimo nos conselhos de educação superior. Então de babaca não tem nada.
A segunda vez em que ele usou a palavra foi nesse contexto: ""Aí tinha um tipo de estudante daqueles que vocês sabem, que vai para a reitoria querer bater no reitor. "Ah, 18 alunos é muita gente na sala de aula, 18 alunos vai atrapalhar a educação". O babaca rico que já estudava não queria que o pobre tivesse a chance", disse, evocando o discurso de ricos e pobres, e dizendo que prefere governar para os últimos." O Lula está falando do REUNI. Vamos lá, ninguém parou pra pensar que os estudantes que invadiram o gabinete do reitor em Brasília foram tudo menos os estudantes do curso de medicina ou odontologia? Ou as coisas mudaram muito, ou a situação ainda é a mesma da minha época: movimento estudantil tem os estudantes mais politizados (nem sempre é bom), normalmente das classes médias ou ainda mais baixas. Patricinha e Mauricinho estão ocupados na academia de ginástica. eu nem tenho opinião formada sobre o tal do PROUNI. De uma certa maneira, a última vez em que eu dei aula numa universidade federal eu teria agradecido se tivessem me dado uma turma com 18 ou até 20 alunos. Minha turma de História Antiga 2 na UFRJ (no longínquo 1997) tinha uns 60 alunos, e isso porque eu aceitei que fosse dividida em duas (não existia nenhuma sala com capacidade pra tanta gente, e a segunda turma acabou ficando bem menor). Mas a crítica mais razoável que já ouvi deste programa é que eles está incentivando uma enorme expansão do ensino universitário, dando verbas para contratações, novos edifícios, etc, mas garantindo essa verba extra por 4 anos apenas. Ou seja, eu amplio minha universidade de 10 mil para 13 mil estudantes, aumento meu quadro de professores em 15%, começo a construir um novo prédio pra física, e daqui a 4 anos descubro que aquela verba extra era temporária... Questionar esse projeto pode até ser coisa de babacas, mas não tem nada de otário...
Mas o que deixa chocado é como a imprensa e a oposição simplesmente deixam o Lula dizer tudo o que quer, sem cair na cabeça dele e do governo. Quando o Ciro chamou os consumidores brasileiros de babacas no governo Itamar, quando FHC chamou quem se aposenta jovem de preguiçoso, foi um enorme escândalo. Como eu já disse antes, eu gosto de várias políticas desse governo, não desgosto de algumas, e discordo totalmente de outras, mas a retórica chavista do presidente é inacreditávelmente idiota e inaceitavelmente engolida pela sociedade. O problema é que a imprensa não sabe do que está falando, e a oposição não está interessada em fazer política e apresentar alternativas, mas apenas em vender seu voto em ocasiões especiais, à espera de que a próxima eleição traga alternância no poder.
Direitos civis e racismo, ou: onde é que eu deixei de entender?
Mais ou menos um mês atrás eu assisti este vídeo no the Daily Show
O vídeo é uma piada sobre o quanto uma vitória de Obama prejudicaria a vida de crianças negras, por elevar demais as expectativas. A piada é que não basta ser jogador de basquete ou rapper, agora uma criança negra tem que ser presidente. Eu achei a piada engraçada, até que li esta matéria no New York Times de hoje. E confesso que já não entendo mais nada. Uma presidência do Obama só seria um retrocesso se ele for um péssimo presidente, incompetente em extremo. Porque o fato de que um membro de uma minoria chega a uma posição de poder não quer dizer que os problemas enfrentados por aquela minoria tenham deixado de existir. Significam na verdade que chegou uma boa oportunidade para enfrentar essa minoria. No caso de Obama, especificamente, significa também que existe a possibilidade de se reconsiderar o debate sobre ação afirmativa, reparação, etc, para fazê-lo mais compreensivo e melhor focado. Basta pensar no discurso que ele fez sobre pais pobres e negros assumindo suas responsabilidades, alguns meses atrás.
Hoje aproveitei o dia de sol e a bicileta nova e fiz uma breve excursão até Ladenburg, uns 10 km daqui, seguindo pela margem do rio Neckar (o google maps só mostra o itinerário de carro). Foi um passeio espetacular. Em primeiro lugar, porque a paisagem é maravilhosa. Em segundo lugar, porque existem vários bares e cafés no caminho, além do jardim zoológico da universidade, que é muito bom (e onde os bichos não são confinados em jaulas minúsculas).
Ladenburg é uma cidade linda, talvez a mais bonita que eu já tenha visitado na Alemanha (ok, não são muitas). A cidade foi ocupada pelos romanos, destruída por bárbaros em 260 d.C., e depois só fez crescer durante a Idade Média. A cidade se beneficiou também do fato de ser perto de um grande centro industrial, Manheim, com um grande centro científico por perto (Heidelberg), o que incentivou Karl Benz a se mudar para lá na época da fundação da Mercedes Benz (o museu do automóvel fica lá).
Depois de lá ainda tive tempo de parar para uma visita apropriada ao zoológico, o que me valeu a completa desaprovação da Sra Amiano, mas tá valendo.
Ok, como qualquer pessoa que me conhece poderia imaginar, eu perdi a senha para fazer o upload de fotos no Flickr. Com isso, o Amiano Marcelino in pictures deixou de ser atualizado, apesar de continuar de pé. Para compensar, abri uma nova conta, e como sou pouco original, decidi chamá-la Amiano in pictures. E já coloquei fotos lá!
Ok, depois de um longo e tenebroso inverno, acho que agora posso dizer que estou de volta. Vamos aos updates:
1. Do dia 01.08 ao dia 16 eu e a patroa estivemos no Rio, para o casamento do Felipe. Foi a primeira vez em que fomos juntos, e a primeira vez em que fui ao Forte de Copacabana (a fortaleza de Santa Cruz, em Niterói, é mais bonita) e, vergonha!, o Jardim Botânico. A patroa gostou, especialmente de andar na praia, dos animais e plantas, dos sucos, de ovinho de amendoim, coxinha de galinha e bolinho de aipim.
2. De volta a Heidelberg, mudei de casa, para um apartamento um pouco maior. E comprei uma bicicleta.
As próximas semanas prometem: a Liz vem no final de semana que vem, e no seguinte, e depois eu vou a Roma, por uns 12 dias.