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Segunda-feira, Junho 23, 2008

 
União Européia e os limites da democracia

Antes de mais nada, não se deixe enganar. Isso aqui não é um post denso. É só uma impressão. Depois do comentário do Igor, ao post sobre o resultado do referendo irlandês sobre o tratado de Lisboa, fiquei pensando um bocado no problema de como implementar a União Européia em um lugar onde as pessoas estão pouco interessadas em União. Isso não é só impressão, não, apesar de eu não ter nenhum artigo pra citar (o Na Prática deve conhecer alguma coisa). Os franceses e holandeses recusaram a constituição européia, os irlandeses rejeitaram o tratado de Nice e agora o de Lisboa. Os italianos já debateram abandonar o euro ao menos duas vezes desde que vim morar aqui. Os ingleses adoram (mesmo) falar mal, os alemães e franceses também.

Existem razões perfeitamente aceitáveis para ser contra a União Européia. Os jornais ingleses repetem estas razões rotineiramente. E com certeza o que eu escrevo aqui é infuenciado pelo fato de eu achar a UE a mais espetacular construção política desde 1776. Pela primeira vez na História (se excluirmos o Império Romano), a Europa está há 60 anos sem guerras (por Europa, neste caso, leia-se, o território parte da UE). Pessoas, idéias, mercadorias, circulam livremente. Valores políticos e sociais são mais fáceis de defender (basta ver as políticas de respeito a pessoas com deficiência físicas, homosexuais, etc). Uma das acusações usadas no referendo irlandês é a de que a UE forçaria a Irlanda a aceitar casamentos homosexuais e o direito ao aborto. Bom, quando alguém é acusado de defender causas que são controversas, mas ainda assim comprometidas com o direito e a liberdade individual, eu tendo a respeitar o acusado. É claro que nem tudo são flores: existem problemas econômicos, muitos países não se reformam por nada neste mundo, existe uma enorme burocracia. Racismo, xenofobia, etc, tudo isto existe por aqui. A Europa vai e vem, segundo a opinião pública.

Mas eu acho que a Europa pode vir a representar um valor, e mesmo que nem todos os europeus o respeitem agora, acho que este valor pode vir a ser respeitado. O que eu quero dizer com isso? Bom acho que não passa pela cabeça de um jovem alemão médio (e estou falando da imensa maioria) invadir a França só porque isso é o direito de sua nação. A convivência e a cooperação forçaram estes países a se entenderem e a se aceitarem (pode dar algum crédito também aos horrores da guerra). O fato é que existe uma diferença brutal entre a geração da Liz (35 anos) e a dos seus avós. Os gregos com quem eu dividia uma casa em Oxford estavam muito satisfeitos de saber que no final do doutorado os dois retornariam para a Grécia para o serviço militar, pois isso os ajudaria a manter a Turquia longe de suas terras e mulheres (by the way, nenhum deles voltou). Chipre, o Leste Europeu, todas estas são áreas onde o povo está preparado para se esgoelar, onde a idéia de Europa é moralmente muito superior à vontade do povo. É claro, o Pedro Doria colocou um link para um artigo no NYT sobre o racismo europeu*. Esse problema existe mesmo, e se até eu que sou branquinho (bem, quase) já ouvi comentários aqui no bel paese (straniero...).

Mas eu me pergunto se a memlhor maneira de lidar com a União Européia seja mesmo através de referendos e plebiscitos. As pessoas decidem quando elegem seus parlamentos, primeiro ministros, presidentes, etc. Estes deveriam fazer campanha com plataformas e programas políticos conhecidos pelo público. Quando eleitos, deveriam ser capazes de decidir e assumir a responsabilidade. E se julgarem necessário convocar um referendo, deveriam fazê-lo e respeitá-lo - a Irlanda está planejando convocar um novo referendo pra votar o tratado de Lisboa de novo, justamente como aconteceu com Nice.

* nota sobre o artigo no NYT. Ainda não li inteiro, mas é interessante ver o argumento incial do autor: na Europa, acusações contra imigrantes estão virando racismo, especialmente contra gente do Oriente Médio, muçulmanos. Não conheço a situação nos EUA, mas não acho que a situação de hispânicos (incluídos nosotros) e muçulmanos seja melhor, não.

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A Irlanda está nua

O picareta do Spencer Tunick esteve na Irlanda algumas vezes, nos últimos meses. Resultado: um monte de irlandês pelado (com fotos!).

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Sábado, Junho 21, 2008

 
Fora de contexto

No ônibus, vejo a primeira página do jornalzinho City, com a manchete: Dezesseis líderes da máfia mandados para a cadeia. Logo abaixo, a frase do dia, de Bruce Springsteen: "A família é a base do futuro".

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Ineficiente, por que não sê-lo?

Ontem a Liz foi ao correio colocar uma carta para mim. O lugar está cheio de gente, pagando contas, abrindo contas (o correio italiano faz as vezes de banco), etc. Ela vai ao guichê, e diz que quer mandar uma carta. O cara olha para ela, e responde que não pode fazê-lo: a máquina que estampa os envelopes (a inimiga número um dos filatelistas) está quebrada. Ok, diz a Liz, então me dá um selo. Não tinha. A Liz teve que ir ao bar ao lado, comprar selos de 60 centavos.

Isso não é uma anedota, um caso isolado. É um retrato da alma da Itália.

São 07:50 da manhã de um sábado. Um caminhão da prefeitura chegou na pracinha aqui na frente, e está montando um andaime. Eles irão embora às 11 da manhã, depois de terem acordado todo mundo.

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Sexta-feira, Junho 13, 2008

 
Justo quando estou me preparando para sair da biblioteca, vejo que o referendo irlandês decidiu rejeitar o tratado de Lisboa (Guardian e BBC). Ou seja, a União Européia fica parada, de novo. Desta vez não se sabe por quanto tempo, já que o tratado exigia que todos os 27 países o aceitassem (só a Iranda teve um referendo popular, os outros aprenderam a lição e decidiram sim sem consutar o povo). Isso já havia acontecido antes, quando a Irlanda rejeitou o tratado de Nice. Na época, os irlandeses fizeram um novo referendo, uma vergonha. Menos de 40% de votantes, desta vez. Isso de um país que se beneficiou como nenhum outro da tal União Européia - quando chega a hora de pagar, aí ninguém gosta.

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Every sperm is sacred

Parto hoje para Clogheen, Irlanda, para o batizado de minha sobrinha. O pai é mais ou menos protestante (não é á muito religioso), e minha cunhada (irmã da Liz), assim como toda a sua família, já foi católica um dia num passado muito distante. A Igreja Católica prestou o maior des-serviço possível a si própria na Irlanda: séculos de dominação brutal, obscurantismo, coroados por corrupção e crimes sexuais. Quando estes vieram à tona, foi uma verdadeira hemorragia de fiéis.
Hoje em dia a piada abaixo, do Monty Python no sentido da vida, não seria tão engraçada:


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Quinta-feira, Junho 12, 2008

 
Metodologia do trabalho intelectual

Eu me lembro de quando eu estava na faculdade de História, de como todo professor tinha obsessão com o tal do fichamento. O fichamento, para quem nunca teve o prazer de ser introduzido, consiste em tomar notas, durante a leitura de um livro ou artigo, em uma ficha de cartolina que idealmente será arquivada. Cada ficha contém (isso depende de quem está te dando aula) a identificação do texto, normalmente o número da página de onde aquea idéia vem, às vezes (isso é mais sofisticado), escrita em vermelho, uma palavra-chave que te ajude a encontrar o que você procura na sua coleção de fichinhas.

Eu sempre fui fascinado por isso, especialmente depois de ouvir o Gabriel Cohn se perguntar, em uma aula sobre "As formas de legitimação não-legítimas" (ou outro texto qualquer) como é que o Max Weber lia e acessava a informação adquirida. Bom, ele devia estar se referindo aos fichamentos do Weber. Isso é verdade: num único texto o meu futuro colega de instituição era capaz de incluir informações interessantes e pertinentes sobre a China dos Ming, a Florença dos Médici e ainda algumas idéias sobre o direito de propriedade na obra de Ulpiano. Onde é que ele guardava toda esta informação, e como é que a acessava?

As coisas mudaram muito com o advento dos computadores, especialmente o uso de laptops em bibliotecas. Hoje em dia o que eu faço é uma espécie de fichamento: num documento do word, ponho a identificação do texto, depois vou fazendo minhas anotações, anotando as páginas de onde tiro cada informação. É fácil achar uma informação em um texto porque basta usar control+f, até aí eu domino o word. Os fichamentos são arquivados em pastas, que contém outras pastas, e assim vai. O método não é à prova de falhas, e cada vez que escrevo um artigo sobre a prefeitura urbana em Roma na época tardo-antiga, abro a pasta "leituras", depois "roma", depois "política e administração", e depois "prefeitura urbana". Ali estão os textos do Chastagnol, Matthews, etc.

Eu sempre achei que esse método de guardar e organizar informação fosse o mais simples e eficiente. É uma aplicação de técnicas mnemônicas antiquíssimas, que vêm desde (ao menos, mas provavelmente muito mais antigas) Cícero e Quintiliano: você imagina o seu cérebro como uma casa, com quartos, armários, gavetas, e basta entrar em casa para acessar a informação mentalmente, quero dizer). O Hannibal Lecter, por exemplo, era um mestre nesta forma de recordar coisas.

Mas hoje eu vi um método diferente. Eu estava conversando com o Filippo Coarelli, um dos maiores especialistas em arqueologia romana vivos, sobre a bendita prefeitura urbana. Ele vai apresentar um trabalho em uma conferência sobre o assunto, e é sempre bom ver o que este povo pensa antes de meter o bedelho em um assunto tão importante para quem estuda Roma. Ele tinha um caderninho consigo, e me mostrou algumas de suas notas e idéias. Aí ele virou a página e eu vi que as notas não tinham nada a ver com nossa conversa. Mais tarde quando ee fechou o caderno, vi que na capa estava escrito "Maio 2008". Ele queria me dar uma referência de outro livro, e fomos até sua mesa: ele abriu o caderno "Junho 2008" (o Abril estava ali também), e no meio de várias anotações aleatórias, encontrou a tal referência que ele havia visto na biblioteca da Academia Americana em Roma. Ou seja, quando ele precisa encontrar alguma coisa (ele tem 70 anos, até usa computador para escrever, mas não para as notas), ele precisa se lembrar que quando viu, ouviu ou teve a tal idéia. Aí ele pega o caderno e está lá. Se o método que eu uso é espacial (onde está a anotação), o dele é temporal (quando foi feita a anotação). O método dele funciona, porque ele está aí, escrevendo alguns dos livros mais importantes para a história, topografia e arqueologia de Roma (o catálogo integrado das bibliotecas acadêmicas em Roma lista 116 obras!).

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Pode a morte do filósofo levar à fiosofia da morte?

É o que eu me pergunto, depois de ler este artigo, no Guardian. Avicena morreu de se aplicar 8 enemas em um dia, Crísipo foi soterrado em estrume, Ayer morreu e voltou. É tentador postular a filosofia ou os interesses de um com sua maneira de morrer (De la Mettrie morreu de indigestão, Foucault morreu de AIDS), mas para isso seria necessário um estudo de como morreram TODOS os filósofos de uma mesma escola de pensamento.

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Quarta-feira, Junho 11, 2008

 
Como fazer do governo Lula um governo limpo?

A resposta foi encontrada em Yorkshire, segundo a BBC.

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Nem só de Pelé e Tom Jobim...

E não é que eu estava lendo o blog do Luís Nassif quando vi uma notícia tão interessante que eu tive que reproduzi-la aqui: a Accademia Nazionale dei Lincei, a instituição científica mais prestigiosa da Itália (Galileu Galilei foi sócio fundador - o bel paese pode estar chafurdando, mas tem história), acaba de conceder seu maior prêmio científico a um brasileiro, o matemático Jacob Palis. Ele ensina e pesquisa no Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada, no Rio, e o currículo dele é realmente impressionante - até verbete na Wikipediaem inglês o cara tem!

O que isso quer dizer? Bom, antes que o Galvão venha dizer que Jacob Palis é o Brasil no reino dos números, e que hoje cada brasileiro é um pouco matemático, convém lembrar que nesta mesma semana a Folha de São Paulo publicou uma matéria (link aqui, via Hermenauta) mostrando que apenas 5% dos melhores alunos que concluem o 2o grau têm alguma intenção de virar professores. Jacob Palis é um bom exemplo de um sujeito que resolveu dar uma banana para o determinismo histórico, aproveitou as poucas oportunidades que a vida (aí incluído o Ministério da Educação, que pagou seu doutorado em Berkeley) lhe deu e desenvolveu suas potencialidades.

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Terça-feira, Junho 10, 2008

 
Mas já a política...

Uma coisa estarrecedora é o que está acontecendo na política do Rio de Janeiro. A imolação da candidatura do Alessandro Molon, pelo PMDB e agora pelo PT também. O Noblat dá o serviço: o PMDB não sabe o que quer - ou, mehor dizendo, cada parte do PMDB quer uma coisa - e por isso decidiu retirar o seu apoio. O governador molequinho 2, a revanche, foi andar de bicileta em Paris (ah, ir ao Brasil me permitiu ver aquela capa do Globo, o menino lá, na cidade Luz, com os braços abertos, o sorriso no rosto...) decidiu que o seu candidato sempre foi o Eduardo Paes, aquele que já havia sido. Grupos do PT no Rio começaram a fazer as contas, e acham melhor apoiar a candidatura renovadora do momento, a eterna Jandira Feghali, e largar de mão o seu próprio candidato. Lula, sempre coerente, já avisou que o Crivella é seu amigo, e que não poderia fazer campanha contra ele. Alessandro foi largado dizendo que a chance de abandonar a sua candidatura é zero. Faz bem. Do jeito que esse povo muda de opinião, basta um vendava para sua candidatura ficar "in" de novo. O seu nome, não importa o resultado, já ficou mais conhecido. E está mesmo na hora de o PT do Rio ter gente nova na frente.

Isso, é claro, ao mesmo tempo em que o PT nacional faz o jogo do Serra e veta qualquer aproximação com o PSDB mineiro nas eleições em Belo Horizonte...

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O Rio de Janeiro continua o quê?

Minhas impressões formadas durante a minha mais recente passagem pela outrora cidade maravilhosa.
1. O centro da cidade continua lindo e caótico. É disparada a área da cidade mais interessante, do ponto de vista da arquitetura (não tanto pelas igrejas, que são bem ordinárias, mas pelos edifícios coloniais e pela arquitetura moderna). E tem sempre a Uruguaiana, onde você pode encontrar o governador molequinho 2, a revanche, comprando dvds nacionais.
2. O carioca é muito mal educado, especialmente quando dirige.
3. O número de torcedores do fluminense dirigindo táxis cresceu muito.
4. Como consequência do item 3, o nível das conversas com taxistas está muito melhor. Um deles discutiu comigo o desmatamento da Amazônia e o aquecimento global. Outro dissertou sobre a política americana e a economia brasileira (solução: precisamos de estradas de ferro).
5. Agora a barca tem café com pão de queijo, fala sério. O primeiro mundo já chegou, está flutuando entre o Rio e Niterói.

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Eu costumava reclamar de minhas férias no Sul da França, em uma casa infestada de baratas, mas isso aqui me fez rever meus conceitos...

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Segunda-feira, Junho 09, 2008

 
Amiano Update

A partir do dia primeiro de Julho este blog estará ainda mais internacional, e este escriba ainda mais esquizofrênico. Vou me mudar para a Alemanha, mais especificamente a aprazível cidade de Heidelberg, onde serei pós-doutorando do seminário de História Antiga e Epigrafia, por um ano. A idéia é fazer um catálogo de todas as dedicações de estátuas honoríficas feitas nas cidades da Itália e da África durante a Antiguidade Tardia. EU juro, não é tão chato quanto parece. E ainda vai me permitir viajar um bocado. Tudo isso é patrocinado pela fundação Humboldt. A dona patroa continuará em Roma, e eu estarei por aqui semana sim, semana não.

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Como é que isso aqui funciona mesmo?

Finalmente, de volta a Roma, depois de um mês no Brasil. Fui a Pelotas, conferir a fama da cidade e participar de um encontro de História Antiga. Meu real objetivo era resolver umas paradas da bolsa de pós-doutorado e ver uns documentos no consulado alemão. Tudo resolvido, ainda aproveitei para ver o Fluminense arrasando o São Paulo em pleno Maracanã. Encontrei quase todos os amigos que precisava ver, com duas lamentáveis exceções, o presidente e o senador. MAs Amiano já-já estará de volta, e desta vez com a patroa: chegamos dia primeiro de Agosto, e ficaremos por aí até o dia 16!

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Amiano Marcelino
   
Uma etnografia dos povos barbaros