Esse é um post longo e amargurado, por isso não leiam Quando é que um país se torna fascista? Existe uma data, um momento, um evento que marque essa transição? Uma coisa é quando o fascismo toma o poder: uma marcha contra Roma, por exemplo. Mas a conversão de uma sociedade a ideais que alguns julgavam abandonados, quando acontece? Ou mesmo, será que ideais tão fortes como os ideais fascistas são na Itália chegaram a ser abandonados em algum momento?
A primeira vez em que estive em Roma fiquei bastante surpreso quando vi o quanto a memória do fascismo é forte nesse país. Uma estátua de Mussolini assombra o museu de Arte Moderna, a universidade de Bari ainda se chama, oficialmente, Benito Mussolini, e uma certa Alessandra Mussolini exerce um papel importante na poítica italiana, com seguidores e espaço na mídia. Mas para mim as coisas mudaram mesmo em Novembro de 2007. Não me lembro direito da data, mas me lembro de como percebi que as coisas estavam diferentes. Uma senhora de classe média, esposa de um militar, saiu do trem perto de sua casa, à noite, foi seguida por um romeno, atacada, estuprada e morta. O romeno foi preso, e a reação da imprensa e de políticos da "destra" foi muito forte. Sempre foi comum para jornais italianos, mesmo o La Repubblica, informar seus leitores a nacionalidade de um criminoso quando estrangeiro: romenos, albaneses, egípcios, etc. Isso é, em si, um traço da mentalidade fascista, da lógica de que o mal está nos outros, que no seio da italianidade existe ordem e prosperidade. ]
Mas em Novembro a esquerda capitulou. O governo usou uma brecha na lelislação européia, e deu aos municípios o poder de expulsar estrangeiros contra quem existissem motivos para acreditar que são uma ameaça à sociedade. Criminosos reincidentes, por exemplo. Isso parece uma coisa lógica, mas deixa de sê-lo quando se pensa em como será implementada. Em um belo sábado de manhã, eu e a Liz fomos ao mercado da Praça Vittorio, um mercado popuar muito legal, onde você encontra de tudo. Lá, vimos pela primeira vez furgões dos carabinieri, parando qualquer um que parecesse romeno, cigano, albanês, recolhendo-os, checando seus documentos, cadastrando-os.
A campanha eleitoral só fez reforçar essa impressão de um país que capitulou perante seu lado mais horroroso (um lado que já esteve por 20 anos no poder). Note bem que na Itália, apesar de toda a campanha ser feita em termos de "esquerda" e "direita", estes são conceitos que não se verificam na realidade do jogo político. A esquerda, que estava no poder, vinha tentando quebrar a influência dos sindicatos, liberalizar a economia e seguir princípios básicos da ortodoxia fiscal. A direita, bem, se colocou do lado do Grande Capital Nacional (contra a venda da Alitalia à Air France), das pequenas corporações (taxistas, donos de farmácias), em geral contra o consumidor, ao lado dos evasores de impostos, etc. Mas é usando as palavras "direita" e "esquerda", muitas vezes seguidas de acusações transformadas em adjetivos, como "assassino", que o debate político se desenvolve. Some-se a isso a presença de um grande cômico, infelizmente tomado a sério, Beppe Grillo, que com seu movimento "Vaffanculo" (vai tomar no cu), conseguiu convencer vários eleitores, em geral jovens e de esquerda, que os políticos são todos iguais e que votar é ser um idiota.
Agora, com as eleições, o parlamento italiano pela primeira vez está vazio de comunistas e socialistas. Literalmente, nenhum deles foi eleito. Não é só porque Berlusconi foi eleito com uma maioria acachapante, mas porque Bossi e a Lega Nord tornaram-se a terceirta maior força no parlamento, que a situação aqui ficou ainda mais complicada. Mesmo Roma, que por 20 anos esteve nas mãos de Rutelli e Veltroni, tornando-se uma das poucas cidades italianas a ter algum tipo de crescimento econômico na Itália, está agora nas mãos de Alemanno. O resultado disso é assustador: no Vêneto e Toscana, comitês de cidadãos voluntários estão sendo organizados com o apoio dos governos locais, para auxiliar a polícia a proteger a cidade (se uma moça é estuprada, e um grupo de 30 cidadãos-vigilantes encontra um estrangeiro que não fala italiano, onde termina o braço duro da lei e começa o linchamento?). Alemanno foi eleito dizendo que estupradores devem usar braceletes, o que tornaria mais fácil identificá-los. Desconta-se assim o fato de que mandar alguém pra cadeia pra cumprir pena é a punição adequada, e nem vamos falar das roupas que judeus tinham que vestir na Idade Média ou nos anos 30. Em Roma, a eleição de Alemanno foi comemorada assim, alla romana.
Eu adoro esta cidade, a mais bonita do mundo, e adoro a Itália, e tive sorte de morar aqui por tanto tempo. Mas estou muito feliz de ir embora.
Por que a arqueologia de botequim é melhor do que a sociologia de botequim (ao menos em Roma!)
Saí da biblioteca com um colega para tomar um café no boteco aqui do lado da Escola Francesa, chegando lá, o pessoal do bar perguntou se tínhamos visto a estátua equestre encontrada no Coliseu. Bom, a superintendência de arqueologia está fazendo trabalhos ao redor do monumento, e a notícia faz sentido (veja aqui). Só em Roma o barman pode te dar uma informação destas...
O humor inglês é provavelmente o melhor do mundo, e o número de programas de TV engraçados é enorme, incluindo clássicos como The Monthy Python, The Blackadder, ou Fawlty Towers. Durante o período em que eu estive lá, nada superou Trigger Happy. A premissa é muito simples: os caras imaginam uma situação absurda, e vêem como as pessoas reagem. Não tem nada a ver com as pegadinhas brasileiras, nem com o humor do Ali G. As situações são surrais, mas tornam-se críveis por se passarem na Inglaterra, um lugar onde cada um faz o que quer, sem que ninguém faça (ou externe julgamentos). Esse quadro é um bom exemplo, quando um agente secreto tenta fazer contato no metrô com o agente "white bear".
Onde se narra a viagem de Heidelberg a Trier, e de uma estranha visão de Frankenstein
No Domingo de manhã eu peguei o trem às 7.30 para Trier, via Kaiserslauten. O trem era um regional, e eu imaginei que fosse ficar vazio, sendo tão cedo. Eu não tinha imaginado uma possibilidade, que virou realidade. A garotada sai à noite de suas vilas e cidadezinhas com nada para fazer, rumo às cidadezinhas não tão -inhas. Passam a noite bebendo etc, e retornam para casa no dia seguinte, pois (imagino) os trens devem ser mais raros à noite. Como a Sorte é minha irmã, minha cabine foi ocupada por 3 adolescentes portugueses (!), que fediam a cerveja, e passaram o tempo todo falando sobre quanta droga consumiram e quantas garotas comeram. Eu pensei em dizer que eles eram uns mentirosos e deveriam criar vergonha na cara e tomar um banho, mas preferi mudar de vagão.
Bom, minha intenção era dormir ou ler, mas a paisagem era tão bonita - viajávamos pelo vale do Necker e depois do Reno - que não conseguia deixar de prestar atenção ao que estava do lado de fora. Foi quando, depois de uma curva, entre dois morros, em um vale estreitíssimo, passamos por um vilarejo (30 casas + igreja + lojas) muito antigo, chamado Frankenstein (tem umas fotos aqui. Eu nunca havia ouvido falar disso, e para completar aind ahavia um castelo em ruínas no topo de um dos morros. Tudo isso circundado pela mais exuberante floresta. O problema é que pelo visto existe uma outra vila com o mesmo nome, e agora não sei qual delas inspirou o livro famoso de Mary Shelley (o qual, aliás, já comecei a ler, e recomendo!) Acabei de descobrir que existe até uma festa de Halloween no castelo, e tem um site aqui.
Father Ted é uma série filmada para a TV na Irlanda nos anos 90, que foi um grande sucesso. A estória é centrada na vida de uma pequena ilha na costa da Irlanda (ficcional), Craggy Island, especialmente em três padres e sua governanta. Father Ted, um padre corrupto e mulherengo, Father Jack, um velho bêbado que só faz gritar palavrões, e Father Dougal, recém saído do seminário e um completo idiota. A série é extremamente crítica a respeito da influência da igreja católica na Irlanda, da vida rural e tranquila dos irlandeses, suas superstições e mesquinharias. O mais importante, é um excelende exemplo do senso de humor irlandês, sempre gozando de si próprio e de suas misérias. Abaixo vai um pedaço do episódio em que Ted e Dougal vão a um shopping center, deixam Jack no berçário, e acabam se perdendo na seção de lingerie. O ator que interpretou Lucius Vorenus na série Roma faz uma participação especial.
Lendo a Cidade de Deus, de Santo Agostinho, uma coisa eu tenho que admitir. Jerry Falwell e todos aqueles padres, pastores e papas que fizeram do cristianismo uma religião baseada em (e geradora de) ódio estão em ótima companhia!
Bom, pelo que consegui entender a conferência foi bem razoável (o que hoje em dia é bom). O tema era a formação do Estado na Antiguidade Tardia e na Alta Idade Média, e uma hora escrevo mais sobre isso. Como meu alemão é ruim, eu consegui entender boa parte dos papers, mas necas da discussão. Minha vingança foi quando uma italiana falou em inglês, re-definindo a expressão inglês macarrônico. Ninguém entendeu nada do que ela disse, mas como eu já havia lido um seu artigo, e ela basicamente repetiu o argumento, fiquei em clara vantagem sobre os outros participantes.
Mas uma coisa que me chamou a atenção mesmo foi o fato de que os alemães riem muito durantes estas conferências. Cada vez que alguém faz um comentário, os outros riem; outro emenda, todos riem. Essa é uma coisa importante, os alemães têm a fama de mal humorados, e de mal piadistas também. Bom, talvez sejam mesmo mal piadistas mesmo, mas pelo menos os conterrâneos acham graça.
Assim que cheguei no aeroporto em Frankfurt, uma coisa que me chamou a atenção é a língua. Tudo é traduzido pro inglês. Os alemães são muito pragmáticos a respeito disso, e sabem que poucas pessoas entendem a sua língua. Na conferência todos os papers tiveram um resumo em inglês, o que facilitou em muito a compreensão de algumas pessoas (isto é, eu).
A atitude que as pessoas têm com relação à língua é muito interessante. A maioria das pessoas, quando perguntadas, responde que fala "a little bit". Os italianos geralmente são mais confiantes, e otimistas: a maioria dos alemães que encontrei, especialmente os jovens e especialmente em Heidelberg, fala inglês fluentemente (o mesmo não é o caso do ado de cá dos alpes). Em Trier, quando eu perguntava a alguém em uma loja se ele falava inglês, a pessoa, normalmente já idosa, ficava envergonhada e pedia desculpas, e imediatamente procurava alguém que pudesse me ajudar. Eu não sei se os alemãse sempre foram abertos assim, mas o fato é que isso torna a estadia muito mais fácil. E quando você tenta usar algo do que aprendeu naquele cursinho na rua Jardim Botânico, eles fazem força para entender, ao invés de olharem para sua cara como se vc fosse uma anta (ah, Roma...).
Meu contato preferido foi com a mocinha do hotel onde fiquei em Heidelberg, muito simpática e bonita. Eu cheguei, ela disse que falava "a little bit of English", e começou a me dar informações. Quando eu perguntei a ela onde poderia encontrar um cartão para habilitar meu celular, ela disse que era na Hauptstrasse, perto do lugar que ela havia recomendado para meu almoço. E observou, orgulhosa: "It is a very beautiful street, the longest street of Europe in Germany!"
Acabo de chegar da Alemanha, onde fui a uma conferência (veja post abaixo), e aproveitei para passear um pouco. Ir à Alemanha é sempre um choque. Às vezes tenho a impressão de que os alemães, quando descobrem que você mora na Itália ou outro país latino, se esforçam para confirmar tudo aquilo que faz com que eles sejam admirados. Você chega no aeroporto, na hora, sua bolsa chega rápido, a estação de trem do aeroporto é enorme. Para comprar as passagens de trem você pode usar a máquina automática (que ao contrário daqui, funciona) ou ir até o guichê. Os trens chegam na hora, os serviços são excelentes, tudo é limpo. É sempre um problema formar uma opinião sobre um país a partir de esterótipos, mas é baseado nisso que a gente tende a se comportar. E a verdade é que um turista não quer uma tese de sociologia, apenas que o tempo e dinheiro investidos sejam recompensados.
1. Amanhã parto para Heidelberg, para uma conferência organizada pela rede de historiadores de diversos países da quall faço parte. Os trabalhos serão na maioria em alemão, o que significa que na metado do primeiro paper meu cérebro irá provavelmente sair de férias ("Você não precisa de mim"). Lado positivo: o programa inclui boca livre. Lado negativo: vai ser coisa chique, por isso terei que llevar meu único terno, que eu estava tentando salvar para o casório.
2. De Heidelberg, irei a Trier, antiga capital do Império Romano, para visitar ruínas da época de Augusto e Constantino, um museu com a maior coleção de arqueologia da Alemanha, e a casa onde nasceu o Karl Marx. Morda-se de inveja, Na Prática!
3. No final da semana que vem começam a chegar os primeiros convidados pro casório, que será no dia 17 se a senhora Amiano não criar razão antes disso.
ps: é possível que eu ainda vá ao Brasil em Maio, resolver umas paradas, mas isso é assunto prum post mais detalhado, quando eu tiver maiores informações.