Continuando minha estratégia de reler os livros que me marcaram e me fizeram ter um interesse por história urbana, peguei recentemente o livro do Richard Sennet, Flesh and Stone (ah, se eu soubesse que um dia este livro custaria 6 libras!!!). O livro é uma tentativa de contar uma história das cidades ocidentais, integrando a história das formas urbanas, do corpo e das noções sobre ele, e mais especificamente da maneira como as comunidades urbanas se representaram (ufa!). Bom, como dá para imaginar, trata-se de uma empreitada extremamente ambiciosa, ainda mais porque Sennet passeia por cidades tão diversas quanto a Atenas clássica, a Roma imperial, Paris medieval, Veneza do Renascimento, Londres vitoriana e a Nova Iorque dos anos 70/80.
O livro é uma ótima leitura, especialmente se você tem que atravessar a cidade num ônibus. Sennet escreve bem, os assuntos são facinantes (Veneza no Renascimento, com direito ao Ghetto judaico e ao Mercador de Veneza, de Shakespeare!). Mas o problema talvez seja justamente este: mesmo para um cara brilhante, erudito, e com bons contatos como Sennet, esta é uma empreitada impossível. Especialmente nos capítulos iniciais, sobre Atenas e Roma (dois capítulos cada), o que se vê é uma mistura de informação básica, generalização bem intencionada, e erro. Especialmente porque muito de sua informação é baseada em arqueologia, Sennet faz generalizações que simplesmente não funcionam. Por exemplo, quando ele fala da "casa dos romanos", usando como exemplo um casa de Pompéia. Eu não notei nenhuma batatada óbvia nos capítulos sobre a Idade Média ou Renascimento, mas mesmo assim porque não conheço estes períodos direito. As coisas deveriam melhorar quando Sennet chega ao século XVIII, um período sobre o qual ele já escreveu, mas infelizmente não é o caso, e por outro motivo. Por exemplo, Sennet relaciona a construção de Washington às descobertas de William Harvey sobre a circulação do sangue e à publicação de A Riqueza das Nações, do Adam Smith. O problema é que quase 200 anos separam Harvey de Jefferson, e eu me pergunto se não seria necessário provar esta relação antes de dizer que a cidade do iluminismo é uma cidade em que "the body is set free", onde a idéia de circulação (de sangue, ar, gente, mercadorias) é o princípio ordenador.
Bom, por outro lado, esse é o grande charme do livro. Um cara com imensa erudição, grandes interesses históricos, filosóficos, e sociológicos, como o Sennet, é capaz de ter excelentes idéias que, apesar de inverificáveis, ainda assim iluminam os períodos históricos que ele analisa. A idéia de que Roma na época de Hadriano era uma cidade de espaços ordenados pelo poder imperial é um lixo, mas é verdade que o poder imperial vinha tentando impor uma certa ordem à cidade (não aquela imaginada pelo Sennet). Dizer que a criação do Ghetto em Veneza implicou na criação de uma nova forma de comunidade, e de novas concepções de espaço urbano, é algo que seria tema de um livro chatíssimo e detalhadíssimo nas mãos de um historiador sério. Com Sennet, trata-se de um capítulo interessantíssimo, mesmo que você tenha que aceitar que o Shylock de Shakespeare vire fonte para a história de Veneza: a má prática historiográfica não deve obscurecer o interesse pela idéia. Eu acho que é esse um dos maiores dilemas dos historiadores hoje, obcecados com a tal interdisciplinaridade. Ela é impossível. Por mais que gente queira, um bom historiador é um bom fuçador de documentos. O interesse da interdisciplinaridade está não na idéia de fazer de um historiador um sabe tudo (o mesmo vale pro sociólogo), mas na idéia de diálogo. O Sennet escreve má história, e imagino que o livro seja má sociologia, mas escreveu um livro fantástico.
Quando eu cheguei em Roma 4 anos atrás, depois de 3 anos na Inglaterra, uma coisa que me chamou a atenção foi a maneira como os italianos mais jovens (não) bebiam. Em Oxford, estar na ruas às 23:30 significava passear entre os rejeitados do inferno, meninas vomitando na rua, caras chamando todo mundo pra briga, gente com o nariz sangrando depois de cair de cara no chão, uma beleza. Em Roma, eu ia a um bar com amigos italianos, pedia uma taça de vinho, e estava pronto para pedir mais uma quando eles bebiam o primeiro gole. Os italianos simplesmente não bebiam, o copo era uma desculpa para se encontrar e conversar. Isso era uma coisa mais ou menos geral, exceto em áreas como o Campo dei Fiori, onde os ingleses e alemães iam para se embebedar.
Mas isso mudou, e como. Ontem à noite eu fui com dois amigos a um boteco na piazza di S. Calisto, um lugar onde antigamente só iam sem-teto, hippies em final de carreira, pistoleiras decadentes, e nós três. Não vale à pena tentar explicar porque é que nós gostamos do bar, ele é sujo, os copos são sujos, o banheiro é inaceitável, raramente tem lugar pra sentar porque um maluco está dormindo ocupando 3 cadeiras, etc. Ontem nós estávamos sentados, na segunda rodada, quando dois sem-teto chegaram completamente ultrajados porque nós havíamos roubado a sua mesa - realmente, tinha um cobertor pendurado no basculante ao lado, um claro sinal de que eles chegaram primeiro. Mas enfim. Mas o que estávamos falando era que o número de garotas e garotos, por volta dos 20-21 anos, bem vestidos, aumentou muito.
Não me levem a mal: eu prefiro estar rodeado de gatinhas romanas bêbadas do que de hippies fedorentos, mas existe um processo interessante rolando por aqui. Os últimos prefeitos de Roma foram muito bem sucedidos em fazer da cidade um pólo turístico. Uma das estratégias (e no geral sou a favor disso) foi mudar o plano de ocupação da cidade, tornando mais fácil a abertura de bares e restaurantes no centro histórico. Com isso, tradicionais áreas comerciais, como o Campo Marzio, ou Trastevere, estão sendo abandonados por seus tradicionais habitantes, os preços de imóveis subiram astronomicamente, e os apartamentos são em grande parte comprados por agências que alugam para turistas (aliás, essa é a melhor dica para quem vem pra Roma, procure no Google por Rental in Rome, ou Accommodation in Rome, tem centenas de agências). Um lado negativo disso, que a imprensa percebeu rapidamente, e que os partidos mais conservadores estão sempre explorando, é que os hábitos dos italianos estão mudando. Estão se tornando mais norte-europeus, o que envolve um consumo muito maior de bebidas, criminalidade do tipo inglesa (garoto de classe média bêbado atropelando velhinhas, ou brigas nas portas de bares), e um aumento no consumo de drogas do tipo do ecstasy.
Minha impressão é que quando eu me mudar para uma cidadezinha universitária no oeste da Alemanha, o caos logo deve me seguir...
Depois do urso que foi condenado pelo roubo de mel na Macedônia, agora aparece o urso empalhado na Alemanha, enquanto o urso polar Knut é acusado de ser um psicopata viciado em publicidade. Não sei se isso é só coincidência, ou se a imprensa inglesa está usando ursos como uma metáfora para a política externa da Rússia, mas que existe algo de estranho no mundo urso, isso é inegável.
Este final de semana a Liz e eu decidimos fazer um almoço de páscoa á em casa. Estava um tempo miserável, a Liz tinha comprado frango, nós tínhamos um monte de coisa pra comer, etc. Mandamos alguns SMS, e logo já havíamos 3 furões para comer nossa comida. Eu desci correndo, comprei uma garrafa de vinho, uma pastiera (uma torta típica de Nápoles, muito boa), e estávamos prontos. Foi ótimo. Os amigos trouxeram vinho e chocolate (além de batatas, pois a Liz achou que as que tínhamos não seriam suficientes), e acabamos fazendo um almoço com direito a antipasto, primo (massa), secondo (frango assado com cenoura, batatas, abobrinhas, etc), dolce (a torta), ovo de páscoa, e MUITO vinho. Bom, só estou contando isso porque acho que essa foi a primeira vez desde que saí do Brasil, em 2001, em que me senti celebrando uma data de festa em casa, de verdade. Acho que isso é sinal das mudanças que estão para acontecer...
Lá perto de casa fica a via delle Fosse Ardeatine, uma rua onde antigamente (desde a antiguidade) ficava uma mina de material de construção chamado pozzolana (um componente do concreto). Esse lugar foi marcado por uma das maiores tragédias da história recente de Roma, o massacre das fossas ardeatinas.
No dia 23 de Março de 1944, um grupo de Partigiani, o movimento de resistência italiano, atacou uma patrulha do exército alemão que passava pela via Rasella, perto da Fontana de Trevi em Roma. Roma era uma cidade aberta, não poderia ser usada por tropas alemãs, e essa presença irregular do exército nazista já havia causado uma série de ataques nos meses precedentes (desde que a Itália se rendeu). 26 soldados alemães morreram no atentado, o general alemão e o cônsul logo chegaram na área e viram os corpos estraçalhados ali mesmo. Os moradores da rua foram então convocados a descer dos seus prédios, e foram levados para uma base militar alemã.
No dia seguinte, as 335 pessoas presas foram levadas para as fossas ardeatinas, e foram fuziladas pelo comando alemão. O fuzilamento durou 30 minutos. Até hoje, restam 13 pessoas não identificadas.
Um site muito informativo pode ser encontrado aqui.
A crise que por nove meses ameaçou a existência da Bélgica, quase levando a uma divisão entre Flandres e a Wallonia e que tanto preocupou meu amigo do Na Prática, finalmente acabou. Nesse meio tempo, até um blog foi criado. Um novo governo, unindo as partes francesa e holandesa, foi formado, com um programa mínimo de governo. Finalmente os jornais begas voltarão a ter mais páginas dedicadas ao futebol do que à política nacional!
O site do Paulo Henrique Amorim, Conversa Afiada, mudou de endereço. O Contrato que PHA tinha com o IG foi quebrado, de uma hora para a outra, e PHA foi mandado embora. As primeiras informações liberadas foram de que PHA teria sido mandado embora por causa da baixa audiência de seu site (aqui, no Portal da Imprensa). Essa notícia foi quase imediatamente desmentida, pelos leitores do próprio Portal - basta olhar os comentários. PHA tinha uma das maiores audiências do IG, e estava prestes a ganhar o IBest, aquele prêmio dado aos melhores sites da internet. É óbvio que houve perseguição política, uma vez que o Conversa Afiada é um dos maiores críticos da herança do governo FHC, do Serra, do Daniel Dantas, etc etc. Uma hipótese interessante foi levantada pelo próprio PHA, em um post com o título O Citi me demitiu?. O Mino Carta também fechou seu blog, também hospedado no IG, em reação ao que aconteceu.
Eu não gosto (gostava) dos sites do Mino e do PHA, por uma série de motivos. Em primeiro lugar, porque são duas pessoas a quem muito admiro. Era uma decepção diária ver como seus blogs misturavam notícia (mais o PHA, o do Mino era mais um blog pessoal, com receitas de spaghetti e curiosidades sobre Gênova) com política. Eles cumpriam uma função importante, a do cínico que anda pelo forum (ou ágora, para sermos mais precisos), reclamando de tudo, desmentindo as explicações oficiais, etc, mas acabavam levando isso longe demais, enxergando o mundo como uma batalha entre as forças do bem (o governo Lu,a incluindo o Dirceu e outros criminosos) e as forças do mal (o resto). Quando fatos viram retórica quem perde é o jornalismo. Isso é especialmente ruim num país como o Brasil, onde jornais decentes são uma raridade (Diógenes o cínico passaria séculos procurando por um, com sua lanterna), mas é ainda pior quando se trata de pessoas que podem fazer a diferença. Eles acabavam por aderir à balbúrdia da internet brasileira, onde acusações, calúnias, e bate-boca geralmente suprimem debate e argumentação.
Mas o fato é que o IG acaba de praticar uma forma bastante espúria de censura. Acredito que seja possível salvar boa parte dos arquivos do PHA, mas não tenho certeza. Mas a maneira como ocorreu, sem aviso prévio para os leitores, é ridícula. Quem procura pelo PHA no google hoje encontra uma "page not found". Isso é uma vergonha. Mais importante do que isso, o IG mostrou que o modelo brasileiro de gestão de sites de notícias precisa ser repensado. O melhor exemplo disso é o Noblat, cujo blog é lido por muita gente todo dia. Minha impressão é que, desde que foi para a Globo.com, o conteúdo do site perdeu muito, apesar de ser mais bonito e ter mais recursos. Não se trata de censura, não me parece isso, e o Nassif disse que não tem sofrido nenhuma censura do IG, apesar de estar em guerra contra a Veja e a Abril. O Josias de Souza, hospedado no Uol, também não parece ter maiores problemas com o portal que o abriga. Mas o IG mostrou que a bruxa está solta, e que a tão proclamada liberdade da internet é um bem tão relativo quanto precioso.
Olhando de um ponto de vista mais positivo, o PHA já montou seu novo site independente de um grande portal. O Globo e a Folha cobram para que se leia seu conteúdo, e o pão duro aqui não sentiu nenhuma dificuldade em ter acesso a informação. Na internet, ela sempre aparece, basta procurar. Do ponto de vista do apurador de notícias, assim como do leitor, a dispersão e fragmentação da internet são provavelmente a melhor realidade possível.
Uma multidão de 7 (eu disse SETE!!!!) visitantes esteve aqui procurando informações sobre quem foi Amiano Marcelino. Resolvi responder lá no Antiguidades Romanas. Senhoras e senhores, o Amiano Marcelino, em carne e osso e bits!
Eu e a Liz fomos assistir uma apresentação da sensacional Orchestra di Piazza Vittorio. A piazza Vittorio Emmanuelle é uma parte de Roma perto da Termini, onde vivem muitos imigrantes, da África, OrienteMédio, Ásia, etc, e a orquestra é a maior celebração desta diversidade cultural (existe um mercado de comida também, espetacular). Ela reúne músicos jovens, do mundo todo, com diferentes instrumentos e diversos estilos. Normalmente eles atraem uma multidão para os seus concertos, e desta vez não foi diferente: trata-se do primeiro ato da Flauta Mágica, de Mozart, que eles estão preparando para 2009.
A abertura, excepcional, dá uma noção do espetáculo, e pode ser ouvida na página deles do My Space. O vídeo abaixo não tem nada a ver com a Piazza Vittorio, mas com a Flauta Mágica, quando Papageno volta a poder falar e se une a Tamino para procurar a filha da Rainha da Noite (se a estória parece complicada, é por que é mesmo, mas a ópera tem um verbete legal na wikipedia).
1. O Ministério Público acaba de virar órgão formulador de política externa: impetra ação obrigando o governo a aplicar o princípio da reciprocidade aos espanhóis (aqui). Noves fora o fato de que uma escalada de retaliações afetaria muito mais os brasileiros do que os espanhóis, o pessoal do MP parece não ter entendido bem quando um diplomata falou que existe um foro adequado para esta discussão. Para esclarecer, não é o foro de Guarulhos!
2. O poder executivo legisla, o legislativo executa: o governo chama o congresso de "minha puta", editando e reeditando uma mesma medida provisória 3 vezes (aqui). Isso tudo logo depois de o presidente da Silva ter afirmado que é humanamente impossível governar sem medidas provisórias (em inúmeras ocasiões, depois de ter assumido o governo: mais recentemente, aqui. Bom, se considerarmos os vais e vens de uma medida que o governo urgente, desconsidera urgente, reconsidera, chama de inconstitucional, e depois pensa bem e considera urgente de novo, eu diria que é humanamente impossível governar. Ponto.
O Guardian reagiu à discussão abaixo, convidando um membro do "shadow cabinet" e a reitora da Universidade de Greenwich para discutir se "elite" deveria deixar de ser uma palavra suja. O problema da discussão é que ela é imediatamente politizada. O conservador ataca o governo trabalhista como de "oxbridge-bashing", e do mal que isso representa para a economia, cultura e sociedade. A reitora de Greenwich, puxando o saco dos "oxbridge-bashers" (porque o são), diz que excelência é bom, elitismo é ruim. Ou seja, ninguém acerta o alvo.
Relacionado ao post abaixo, o Nassif escreveu uma coluna relatando alguns dos princípios debatidos no Ministérios de Educação e na Secretaria de Especial de Ações de Longo Prazo, que pode ser lida online aqui. É interessante que algumas das reações a estas propostas, especialmente o comeñtário de um professor do CEFET, vão no mesmo sentido dos meus comentários (aqui), a despeito das diferenças e especificidades dos dois assuntos.
Então o presidente Lula acha que o Brasil está passando por uma revolução no ensino superior. Bom, ao menos é o que ele disse dutante o Café com o Presidente. Cada vez mais gente na universidade, um milhão de novos alunos! Não pode ser ruim! E não pode mesmo. O sistema universitário brasileiro parece ter chegado a um ponto em que a expansão é uma solução mais do que razoável: mais universidades, mais cursos, mais oportunidades para que todos tenham acesso ao tão almejado canudo. Isso é celebrado pelo presidente poucos dias após a CAPES ter anunciado a suspensão temporária de seu programa de bolsas para doutoramento no exterior (veja aqui também).
O redimensionamento de um programa bem sucedido não deve ser visto como algo fora do normal, mas não dá pra deixar de pensar nos critérios que são usados para essa discussão. O Brasil é um país curioso, no qual a defesa de maiores investimentos para as universidades nunca foi feita pelos partidos e órgãos de imprensa conservadores (ferrenhos defensores das "universidades privadas" e seus interesses econômicos), mas por sindicatos, partidos de esquerda, e a classe média baixa. A definição de quem vai estudar numa universidade e, mais ainda, quem vai fazer doutorado, é de uma certa forma uma maneira de definir um dos grupos que irão constituir a elite do país.
Eu na verdade resolvi escrever sobre isso hoje, porque lendo um artigo no Comment is Free, do Guardian, descobri que 85% do poder judiciário inglês estudou em Oxford ou Cambridge (Oxbridge), universidades que costumam receber a maior parte de seus alunos de escolas de elite (as public schools inglesas). O post está aqui. O tom do post, e da reportagem que saiu ontem no Observer, tende para o negativo: a elite inglesa é muito restrita, pois é recrutada em duas universidades apenas, que recebem a maioria dos seus alunos de poucas escolas. Não importa que estas universidades estejam tentando ampliar seu campo de recrutamento. E nem que elas estejam empatadas com Yale e logo após Harvard como as melhores universidades do mundo. O problema é o exclusivismo delas.
Isso tem resultados concretos: Cambridge está prestes a exigir de seus alunos o aprendizado de uma língua estrangeira (veja aqui), isso em um país onde a população é notoriamente avessa a aprender línguas estrangeiras. Como um contraponto tropical, meu orientador na USP me diz que seria impensável passar um texto em inglês, francês, ou mesmo espanhol para alunos de graduação do departamento de História. Os mesmos alunos que justamente protestaram (de maneira idiota, é verdade) por mais professores e mais vagas para alunos no ano passado. O perigo desse processo é que ao invés de arejar a elite, trazendo componentes de outras classes sociais ou grupos sociais, você acaba aleijando uma das formas mais importantes de ascensão social (não estou falando de enriquecimento econômico!). O sujeito que é a primeira pessoa na sua família a frequentar uma faculdade de História, por exemplo, deveria ter que lidar com autores clássicos como Tucídides, Platão, Virgílio, etc, durante a graduação. Ler clássicos não garante ascensão econômica, mas é certamente uma forma de ascensão social, o acesso a bens culturais. (detalhe: estudando na UFF, eu só li o primeiro dos mencionados, em uma turma com 6 pessoas). A faculdade acaba virando uma série de aulas expositivas de conteúdo medíocre, que são copiadas e repetidas nas escolas de primeiro e segundo grau, perpetuando o desinteresse das pessoas pela disciplina.
Esse exemplo da História pode ser generalizado para as outras áreas, e esse é o meu maior medo. O de que ao invés de democratizar a formação de nível superior nós estejamos apenas distribuindo diplomas por um custo (intelectual, financeiro, etc) menor. A elite econômica vai continuar tendo acesso a estes bens (mesmo que raramente os use!), e as desigualdades permanecerão.
Para celebrar o fato de que hoje é o dia de São Patrício, mais conhecido como St. Patrick, o cara que converteu a Irlanda para uma forma de Cristianismo que chocou até o papa Gregório Magno e expulsou as cobras da ilha, aqui vai o link de uma receita para enriquecer a sua dieta: Boxty!
O filmete abaixo é o finalzinho de Ya shagayu po Moskve (de 1963), a história de um operário russo interpretado por um jovem Mikhailov (a Liz me diz que ele agora tem o status de um Almodovar ou do Caetano Veloso, ou seja, um chato), que passa um dia andando pelas ruas de Moscou com uma jovem moça e um amigo. Ele trabalha na construção do metrô, uma obra emblemática no período soviético, e no final do filme, após se despedir dos amigos, começa a cantar uma música que ainda é muito popular entre os russos. Ele é interrompido por uma funcionária do metrô, que pergunta algo do tipo "jovem, por que você está gritando", e ele responde que está cantando, ela então pede a ele (chamando-o de camarada!) para continuar. Na música ele menciona diversos lugares de Moscou e da Rússia, a música e o filme, segundo a Liz, mostram a "verdadeira alma russa", e me fizeram entender porque ela quer voltar pra lá antes de ir pro Brasil.
Este outro filme, abaixo, Kavskaya Plennitsa, é a estória de uma camponesa Georgiana por quem um cientista de moscou se apaixona. Ela foi vendida pelo pai para o homem mais importante da cidade, cujos capangas seguem o casal enquanto ela canta uma espécie de Jovem Guarda. O filme não tem nada do estereótipo de Eisenstein, é uma comédia boba, mas muito popular. A piada aqui é racista: os georgianos são idiotas caipiras, mas é feita simpática pelo fato de que o moscovita não é muito esperto, e a mocinha é a heroína do filme (além de ser uma gracinha).
Já o último filme a Liz me fez assistir inteiro (sem legendas, com tradução dela), Piter FM, se passa em S. Petersburgo (Piter), conta a estória de um cara que se apaixona por apresentadora de rádio que perdeu um celular (que ele encontrou). É legal por dois motivos (se você não sabe russo, como eu): a atriz é uma gracinha, e mostra a vida normal em S. Petersburgo hoje em dia (acho que o filme é de 2006 ou 2007). Segue o trailer:
Ninguém discorda que o governo colombiano agiu errado em penetrar território equadoriano. E não existem muitas dúvidas de que houve ao menos troca de informações com agências americanas. Uma coisa que não dá pra negar, é que os caras ao menos estão fazendo o serviço direito.
"O Ibope foi às ruas entre os dias 24 e 28 de janeiro. Submeteu aos entrevistados a seguinte afirmativa: “As pesquisas com uso de células-tronco embrionárias para o tratamento e recuperação de pessoas com doenças graves é uma atitude em defesa da vida.” Em seguida, perguntou se as pessoas concordavam ou discordavam da sentença."
75% dos entrevistados disseram que concordam, 20 % que concordam em parte, 5% tiveram coragem para perguntar "é o quê, moço?"
Desesperadora mesmo é a situação aqui na Itália. As eleições para o Parlamento serão no dia 13 de Abril, e pelo que a imprensa anda noticiando Silvio Berlusconi continua liderando. Berlusconi criou um novo partido, Partito della Libertà, o que é tão ridículo quanto o Jorge Bornhausen ser membro de um partido chamado Democratas, ou coisa que o valha (felizmente isso jamais aconteceria...). Felizmente Pier-Ferdinando Casini, da UDC, não formou uma aliança com Berlusconi, criando um micro-racha na aliança de direita que levou o país à bancarrota até 2006. Mais à direita está minha candidata preferida, a Santanchè. O nome dela já diz tudo, é santa mas não se sabe de quê. Mas a campanha dela é ainda melhor, o site do partido com a foto dela, muito bonita, as suas opiniões fascistas, é isso o que dá cor (lúgubre) à Itália. O mais triste é que a coisa não está andando bem para o Partito Democratico. Walter Veltroni, ex-prefeito de Roma e um bom candidato, já adotou o slogan do Obama (Yes, we can - ou "somos colonizados", em uma tradução livre), fez alianças com os radicais que nunca deram sustentação sem pesadelo para o falecido governo Prodi, enfim... a crise da esquerda não pode parar, como mostra o jornal de hoje...
O caso da Itália é um bom alerta para quem fala em reforma política no Brasil: aqui as listas são fechadas, e com isso a possibilidade de renovação do quadro político é zero.
Tendo sido provocado, não resisto a dar meu pitaco a respeito das considerações do Na Prática sobre as eeições para prefeito na cidade maravilhosa, coração do meu Brasil-sil-sil. Este é mais um daqueles assuntos sobre os quais não possuo qualquer conhecimento digno da palavra, mas isso já é prática por aqui, então vamos lá. Na primeira vez em que li sobre o assunto eu confesso que meu impulso foi de ir lá fora, gritar, arrancar os cabeos e chorar convulsivamente. Wagner Montes (que pelo visto já desistiu, porque acha que o negócio mesmo é ser governador) e aquele bispo que não deve ser nomeado eram os únicos candidatos mencionados na reportagem, acho que em Novembro. Havia uma referência a uma possível composição entre o PT e o PMDB do Sérgio Alencar, o que me parecia uma excelente maneira de queimar a carreira política do Alessandro Molon. Mas agora as coisas parecem ter melhorado.
Não só porque o Wagner Montes deixou a campanha, mas porque parece que o Gabeira acaba de aceitar concorrer à prefeitura, liderando uma frente com o PV, o PSDB, e o PSB. Isso é muito animador, apesar de eu continuar pessimista (a candidata do Cesar Maia e o Bispo Voldemort ainda devem ser os favoritos, mas eu não vi nenhuma pesquisa de opinião até o momento). Gabeira poderia concorrer com a Denise Frossard, o que seria uma chapa que ao menos em termo do que eles representam me deixaria orgulhoso de ser Resendense que morou em Niterói mas adora a vista do Rio. A Frossard provou, em outras ocasiões, que é absolutamente incapaz de liderar uma chapa, fazendo declarações desastrosas, mas o Gabeira é não só um excelente político em termos de ética e políticas públicas (ainda me lembro com emoção do seu voto contra o monopólio da Petrobrás, "pelo consumidor"), mas também por saber quando morder e assoprar. Não sei se o PSDB toparia fazer figuração, pois apesar de ser um partido muito fraco no Rio, é cheio de mauricinhos com um ego gigantesco (inversamente proporcional à importância do diretório do Rio no âmbito nacional).
Mas o que levou o Na Prática a me provocar foi o fato de que eu estudei com o Alessandro Molon, e já disse a ele diversas vezes que ele é um excelente candidato para qualquer coisa que decida concorrer. Veja bem, cada vez que leio a home page do Alessandro eu me lembro das mesmas características que ele tinha na facudade (onde fizemos campanha para o D.A. de História, do qual ele foi o diretor, em 1993-1994): ele é honesto, compromissado com boas causas, trabalha muito e gosta de gente. Eu nunca o vi fazendo campanha, mas acho que ele deve ser difícil de segurar. Isso não quer dizer que ele teria meu apoio incondicional: pelo que me lembro, nós discordávamos sobre quase tudo em termos de políticas públicas. Bom, basicamente porque ele é efetivamente um político de esquerda, o que pode ser muito bom (e o Rio precisa disso) mas não é minha praia. Eu acho que o Alessandro teria forte votação de católicos, movimentos sociais, sindicatos etc, e acho que isso daria a ele uma penetração que o Gabeira não teria (tendo a achar que o Gabeira tem mais apoio entre os Pedros Dórias da vida). Mas uma eleição na qual os dois concorressem seria muito interessante, e se o Gabeira passasse pro segundo turno e tivesse o apoio do Alessandro, isso seria um passo importante na construção de uma esquerda decentre pro Rio - mesmo que no final das contas as forças do mal levassem a maioria dos votos.
Um artigo da BBC publicado na sexta-feira passada chamou a minha atenção para uma coisa curiosa e trágica ao mesmo tempo. Um dos muitos grupos que sofrem com a explosão de violência no Iraque é o dos Cristãos Caldeus. Eu nunca tinha ouvido falar desse grupo, e fiquei surpreso em descobrir que eles são descendentes dos Nestorianos, uma heresia do século V d.C., que defendia que Cristo possuía duas naturezas, uma humana e outra divina. Nestório, que deu o nome à heresia, foi patriarca de Constantinopla no século V, e se opunha (por exemplo) à idéia de que Maria era mãe de Deus.
Eu sempre pensei (sem pensar muito no assunto) que a perseguição movida por imperadores bizantinos tinha acabado com os Nestorianos, mas só agora fui ver que a heresia na verdade continuou, e se tornou a mais importante igreja cristã dentro do mundo muçulmano. O que é mais impressionante, agora aceita (porém independente) da Igreja Católica - isso é que é maleabilidade doutrinária! Infelizmente os Caldeus viraram um alvo preferencial de atentados muçulmanos em Iraque, onde a maior parte dos fiéis vive. Tem um outro artigo na American Spectator, que é bem interessante.
ps: os links que eu coloquei para Nestorianismo e os Cristãos Caldeus são da Catholic Encyclopedia, e quem for ler verá que existe um "certo bias" nos verbetes. Ao menos eu fiquei feliz de saber que os Caldeus estão "corrigindo seus erros" graças à ação de missionários católicos...