Então hoje de manhã cedo, às 7 da manhã, parti de casa armado de água, biscoitos, livro e ipod. Meu objetivo: ir ao Tribunal de Roma, para fazer válidos os documentos que traduzi para a embaixada da Irlanda (parte da odisséia do casamento!). A embaixada da Irlanda exige documentos traduzidos em inglês e reconhecidos por alguma autoridade qualquer. Eu tentei levar os documentos no consulado brasileiro, pois achei que eles iam querer ajudar um cidadão brasileiro, mas lá eles disseram que não podiam fazer esse serviço. Depois de meses perguntando a Deus e ao mundo, descrobrimos (a Liz descobriu) que se eu traduzisse os documentos brasileiros para o italiano, e depois para o inglês, eu poderia legalizá-los - mais exatamente juramentá-los - no Tribunal aqui em Roma. Enfim, lá fui eu.
Antes de mais nada, preciso explicar uma coisa: o livro que estou lendo é o Ruling the Later Roman Empire, do Christopher Kelly. O primeiro capitulo é justamente sobre a burocracia romana no final da antiguidade, especialmente sobre um advogado/burocrata chamado João Lido, que escreveu um guia da burocracia bizantina por volta de 540 d.C. Kelly mostra como Lido tinha orgulho de a sua ser uma profissão inacessível para os outros - burocratas escreviam seus documentos em Latim, mesmo quando a maioria da população falava grego. A lista de cargos e funções apresentada por Lido desafiaria qualquer especialista em organograma da FGV.
Bom, corta para hoje de manhã. O prédio do tribunal é enorme, tem várias áreas, eu finalmente achei o setor responsabilizado por traduções e perícias. Tive que pagar 14.62 euros por tradução, 6 ao todo. Preencher 6 cópias de um formulário (idênticas). Grampear tudo em uma certa ordem. Colocar minha firma em todas as páginas e também na dobra entre as páginas. Aí enfrentar a fila. Seria injusto reclamar: eu estava num prédio aquecido, a fila era pequena e andou rápido, a mulher que me atendeu reclamou mas foi simpática. Ela fez tudo, mas eu precisava ver a desembargadora, numa outra fila. Esta não foi simpática, mas foi eficiente. Contou os carimbos, me mandou assinat todas as folhas de novo, carimbou tudo, assinou também. O mais interessante: ninguém leu minhas traduções. Eu poderia ter escrito qualquer coisa. Mas agora os documentos são válidos.
Essa é uma coisa interessante da burocracia e da justiça, na Itália e no Brasil. Para o cara que está ali, atrás do guichê, a lei é um instrumento de poder. Você é um distúrbio em potencial. Você precisa saber transformar aquela relação em uma relação pessoal, isso me parece chave. O burocrata é um especialista em um código que só ele deve entender. O que nos resta fazer é contar com sua simpatia. Como diz o Kelly: "Like many modern lawyers or accountants, many later Roman bureaucrats were strongly committed to the perpetuation of a system in which their hard-won mastery of specific technical skills helped both to protect their position and to secure their income. For experts, specialization was a strategic advantage not lightly to be surrendered."
Caligrafia celestial
Ah sim, uma coisa que eu nunca tinha visto: em 368 os imperadores Valentiniano I e Valente promulgaram uma lei (Cod. Theod. 9.19.3) em que proibiam burocratas provinciais de escreverem copiando a "caligrafia celestial" ("litterae caelestes") dos burocratas da corte imperial: uma forma de evitar falsificação de documentos era fazer com que os documentos da chancelaria imperial fossem escritos de forma tão elaborada que pudessem ser imediatamente identificados como tais.
Conforme havia prometido, esi aqui uma pequena resenha de um livro já antigo, mas nada velho e menos ainda superado: The Beginnings of Rome, de Tim Cornell (1995).
Existem poucos períodos tão complicados quanto as origens de Roma. As dificuldades são bem conhecidas: as fontes escritas sobre o período são em muito posteriores aos eventos que descrevem; autores romanos misturam mitos, lendas, eventos históricos e apresentam eventos de maneira anacrônica; a arqueologia do período, apesar de muito rica, ainda é bastante limitada a algumas partes da cidade, e oferece uma visão muito parcial. Para piorar, os historiadores e arqueólogos que escrevem sobre o período tendem a discordar sobre quase tudo. É justamente por isso que eu colocaria este livro fácil-fácil na minha lista de livros de história preferidos.
Tim Cornell escreveu uma história bem tradicional de Roma. Começa no ano mil a.C., e termina em 264 a.C. O livro começa com uma visão geral das fontes, uma discussão da arqueologia pre-histórica da Itália, Lácio e Roma, a geografia da área, e por aí vai. Sua discussão da urbanização de Roma é um modelo de como se deve fazer história a partir de dados arqueológicos: a evidência romana é colocada em seu contexto italiano e mediterrâneo, e Cornell sempre apresenta os problemas que ele identifica com relação às interpretações de arqueólogos e os limites deste tipo de informação. A partir daí, o quadro está montado para dois capítulos espetaculares, "Traditional History" e "The Myth of Etruscan Rome". O que é mais impressionante - e estes capítulos dão o tom para o que virá depois - é que Cornell mostra que, apesar de todos os problemas, não podemos jogar fora a informação preservada nas fontes escritas. Como ele mostra, os relatos tradicionais sobre os 7 reis de Roma são questionáveis, mas não desprovidos de fundamento. Devemos pensar na verdade em uma comunidade em que líderes militares convivem em um balanço frágil, escolhendo seus líderes de fora desta comunidade: não por acaso, a maioria dos reis de Roma é de fora da cidade. A proclamação da República foi parte de uma série de agitações sociais e políticas que afetaram a Itália no final do século VI a.C., e provavelmente demorou algumas décadas para se consolidar.
Eu não vou tentar resumir o livro de Cornell aqui, porque tem tanta informação que seria impossível dar conta de tudo. O que eu quero ressaltar é que o livro é uma espetacular aula de como se faz História Antiga: as fontes são esmiuçadas, consideradas em seu contexto, hipóteses são explicitamente formuladas, e perguntas são deixadas sem resposta quando não existe forma de respondê-las. O livro é tão rico em informações que às vezes o leitor perde de vista o fino argumento de Cornell, e seu debate permanente com a historiografia do período. Suas idéias sobre a formação de uma sociedade oligárquica no decorrer do século IV e o papel dos membros mais ricos da plebe no famoso "conflito das ordens" são muito interessantes.
Cornell não tenta fazer dos problemas com que lida algo "fácil". Um bom exemplo é o Apêndice, onde discute o problema da cronologia nas fontes romanas. Como se sabe, os romanos marcavam suas datas de acordo com os nomes dos cônsules (dois por ano). Para saber quando um evento começou, um romano se referia aos cônsules daquele ano: por exemplo, o ano em que Publius Cornelius Scipio Africanus e Publius Licinius Crassus foram cônsules pela primeira vez. Para saber que data é essa (c. 205 a.C.), o que precisamos fazer é pegar uma lista de cônsules e contar para trás, a partir do ano em que Gaius Caesar e Lucius Aemilius Paulus foram cônsules, o ano 1 em nossa contagem. O problema é que existem várias listas de cônsules, nenhuma dela inteira. Pior: as que nós temos não coincidem, os romanos cometeram erros, omitiram nomes, inseriram nomes, etc. Existe, assim, uma cronologia que é a normalmente utilizada, baseada na pesquisa de Varrão, um estudioso da época do imperador Augusto, mas esta não é a mesma usada por aqueles que se baseiam em Lívio. Isso parece uma coisa sem importància, mas muitas vezes esse tipo de informação é fundamental para datar uma lei ou uma batalha. Cornell mostra que é possível lidar com estes problemas, se ao invés de nos fixarmos na "nossa" forma de contar os anos, adotamos a "romana".
Em suma, um livraço - e o que é melhor, disponível na biblioteca da FFLCH na USP.
Preciso para de escrever porque quero ir à nova padaria que abriu aqui perto, comprar cornetti frescos! Coloquei mais fotos lá no Flickr, dêem uma conferida.
Como o agriturismo em que ficamos era perto de uma cidadezinha chamada Castel Nuovo dell`Abbate, rumamos para lá para jantar. Fomos parar em um restaurante recomendado por Luigi, o cara da vinícola, um restaurante do seu primo. Bom, assim, que entramos, encontramos todo o staff sentado numa mesa, comendo e bebendo. Mal sinal, pensei, arruinamos o Sábado dos caras. Eles nos indicaram uma mesa e um garoto com uns 17 anos veio anotar nossos pedidos. O Jude pediu a carta de vinhos (já que a área é famosa por isso), mas o garoto falou que todos os vinhos estavam no menu: estava lá - 1/4 de litro, meio litro, e um litro. Ou seja, só tinha vinho da casa (o que foi ótimo: barato e excelente, pois se tratava do vinho local).
Mas eu confesso que fiquei preocupado com a resposta do garoto, ele podia ter dito que só tinha vinho da casa. Bom, vamos escolher: o garçom não entendeu nenhum pedido, anotou tudo errado, e eu acabei tomando o caderninho de notas dele e anotando tudo eu mesmo. O cara certamente tinha problemas, e eu já estava imaginando uma tragédia. O Jude lembrou daquele filme Deliverance, em que os forasteiros são massacrados pelos locais, que tinham um tipo de má-formação genética, resultado do "in-breeding" (alguém por favor traduza isso aí). Outros clientes começaram a chegar, mas meu alívio durou pouco: eram todos primos! Parecia aquele filme do Tarantino, From Dusk till Dawn, em que todo mundo no bar é vampiro.
Mas esse é o negócio com a Toscana: ali, o negócio passa de pai para filho, todo mundo se conhece, e raramente alguém abandona seu vilarejo para estudar ou fazer carreira. A área é muito rica, o solo é muito bom, e com o turismo as pessoas se dividem entre a pecuária, agricultura, artesanato e turismo, e vivem muito bem. É aquilo que meu amigo Felipe chamou de "Terza Italia", a Itália cuja economia é baseada na pequena empresa, inovadora mas radicada na propriedade familiar, e que faz a riqueza deste país. É uma riqueza que é difícil de ver, porque não é gasta em carros esporte ou roupas de grife: são camponeses, trabalham duro. A vinícola do Luigi está nas mãos de sua família há 5 anos, e ele já está treinando os filhos!
Então, passamos o final de semana passado na área de Montalcino, na Toscana. Minha conferência em Poggibonsi terminou Sábado, na hora do almoço, a Sr. Amiano e Jude chegaram com o carro logo depois, e partimos para explorar a área. Primeira parada: uma vinícola chamada Il Ventolaio. Eu já havia visitado o lugar quando o Henrique esteve aqui em Junho. O que a gente aprendeu na época é que se você vai a uma grande vinícola, famosa, como a Barbi ou o Biondi Santi, você não recebe muita atenção, e a pessoa que serve os vinhos está de má vontade, etc. No Ventolaio, Luigi e Maria são de uma simpatia enorme, levaram a gente pra ver tudo, desde os vinhedos até as máquinas onde as uvas são esprimidas, etc. É um espetáculo: nós chegamos lá no dia em que a produção de vinho tinha começado, e acabamos bebendo o suco de uva fresquinho, antes de começar a fermentar. É muito forte, concentrado mesmo, e bem doce - mas muito diferente daquela mistura que eu gostava da Maguary (é o suco!). Acabamos comprando algumas garrafas de Rosso de Montalcino, um vinho tinto bom, e duas de Brunello, na minha opinião o melhor vinho italiano (ou um dos).
O Brunello é feito com uvas Sangiovese, e só pode ser produzido na área da cidadezinha de Montalcino. Nem todas as uvas do cacho podem ser usadas na produção, só aquelas que estã mais perto do cabo e no início (ou seja, no topo) do cacho. Estas são as que recebem mais nutrientes, são melhores e mais concentradas. Além disso nem todo o vinhedo pode ser usado para o Brunello, apenas uma parte - isso garante a qualidade, fazendo das uvas um material mais selecionado, e por isso mesmo mais caro. Por isso é que os produtores de Brunello também produzem Rosso, porque podem aproveitar as uvas. Além disso o Rosso só tem que passar um ano envelhecendo, enquanto o Brunello passa 5: 4 anos em barris de aço e um ano em barris de carvalho (querce, em italiano).
A verdade é que só aprendi isso porque percebi que quanto mais eu perguntava sobre o vinho mais me davam vinho pra beber.
O agriturismo onde nós ficamos hospedados, curiosamente chamado "Le 7 camicie", também vai começar a produzir o seu vinho, e foi legal porque pudemos passear pelos vinhedos de lá também (fotos aqui e aqui.
É, isso tinha que acontecer um dia. Na mesma semana este blog recebeu o selo de aprovação do Na prática e o Sr. Amiano foi colocado no You Tube falando sobre estátuas!
Esclarecimento: o bigodudo é um intérprete de covers do Wando que encontrei por lá, mas o cara ao lado dele é o Gian Pietro Brogiolo, um arqueólogo especializado em arqueologia da Antiguidade Tardia e alto Medievo.
A se acreditar nas estatísticas deste blog, a maioria dos visitantes vêm aqui procurando informação sobre garotos de programa (aparentemente, tem que ser em Búzios). Apesar de eu agradecer a audiência, não posso deixar de observar que às vezes qualidade é mais apreciada do que quantidade. Um outro veio aqui procurando informações sobre testes para ser ator pornô. Esse tipo de desespero as pesquisas sobre indice de aprovação do governo não mostram! Outro queria saber quanto custa a entrada para as termas Gellert, em Budapest. A esse peço desculpas: não me lembro quanto custa. Sei que é caro, mas que vale à pena, o Gellert é um hotel em estilo Belle Epoque, lindíssimo.
Obviamente não tenho informações sobre casamentos gay na Irlanda: minha namorada é irlandesa, mas até onde eu sei é heterosexual. Não tenho nem mesmo informações sobre casamentos heterosexuais em Roma, uma vez que estou falhando miseravelmente em preparar todos os meus documentos! Acho que os visitantes que estiveram aqui procurando por informações sobre o Museu Nacional de Nápoles e o Touro Farnese devem ter tido mais sorte, pois acho que já falei disso por aqui.O mesmo vale para os interessados na pirâmide de Caio Céstio.
Estou preparando um paper para uma conferência que começa na quinta e vai até sábado, sobre a Itália e o Ocidente Romano no século V d.C. A conferência (programa aqui) acontecerá em Poggibonsi (a página da Wikipedia é especialmente boa, porque a cidade está sendo estudada pela universidade de Siena; a página do comune também é legal, ambas em italiano), uma cidadezinha na Toscana na área de Chianti, onde o vinho de mesmo nome é produzido :-)
Quando me convidaram para falar, minhas razões para aceitar foram duas: isso me daria uma oportunidade para trabalhar um pouco no tema que pretendo estudar (estátuas honoríficas, vida cívica, etc) e também seria uma boa ocasião para encontrar alguns estudiosos famosos, especialmente o Andrea Giardina. É claro que o feitiço virou contra o feiticeiro: agora estou no sufoco escrevendo o meu paper, e a idéia de falar para essa platéia em específico me faz perder o sono.
Então o cara ganha um oscar, escreve um bestseller, e quando a onda parecia ter passado ainda ganha o Nobel da Paz? Pode ser que não dê em nada, mas se Al Gore decidir concorrer à presidência, ah isso seria uma coisa bonita de se ver. Uma chapa Gore/Obama, então!
Jim Holt, em um artigo no London Review of Books sobre a guerra no Iraque, joga lenha na fogueira. Mesmo que a invasão do Iraque não tenha sido motivada pelo petróleo, os eventos recentes indicam que a operação americana se tornou primariamente ligada ao controle desta fonte de energia. De acordo com Holt, que não cita suas fontes, a terra de Saddam possui mais de 15 bilhões de barris de óleos em reservas conhecidas, a maioria inexplorada devido aos boicotes econômicos. Tropas americanas estão construindo "super-bases", que recentemente começaram a ser "admitidas" pela Casa Branca, para garantir controle das áreas petrolíferas, e os direitos de exploração já foram vendidos, mas ainda não estão sendo usados, a companhias petrolíferas americanas.
Nada disso é exatamente novo, apesar de ser mais um exemplo de um jornalista americano que resolveu acordar para o óbvio ("é a gasolina, estúpido!"). O mais interessante é o resultado deste processo, em termos de política internacional: o controle do petróleo vai jogar os preços para baixo, enfraquecendo a OPEP, o Irã, e a Venezuela. A Rússia também vai perder influência, o mesmo vale para a China que no momento controla a dívida externa americana. Seria, nesse caso, um grande gol para os Bushies, especialmente para Dick Cheney, que de realista "do mal" havia passado a lunático, também "do mal".
É claro que existem consequências possíveis: acelerar a corrida pela bomba atômica no Irã, quando o governo perceber que a diplomacia do petróleo não funciona mais; tornar a política externa da Rússia e da China mais agressivas, para controlar áreas produtoras de energia e voltar a influenciar o jogo internacional. Só quem se dá mal é a Venezuela mesmo, mas isso já esperávamos...
Pois então o Vaticano colocou o secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, ou seja, o sucessor de Ratzinger, para negar oficialmente que não existe um quarto segredo de Fátima. Não é por nada não, mas não é exatamente esse tipo de coisa que o Vaticano faria se quisesse negar o fato de que a mãe de nosso senhor Jesus, o Cristo, em pessoa, anunciou para aquelas santas crianças que a humanidade está inapelavelmente fudida?
Depois de um dia de celebrações, a imprensa mundial começa agora a se perguntar o óbvio: porque diabos o congresso americano achou por bem declarar oficialmente que houve um massacre de armenos em 1915? Que houve um massacre, isso não há como negar, mas desde quando cabe ao congresso americano se pronunciar sobre isso? E porque é que todo mundo espera e exige que os americanos façam algo assim? Alguém sabe se algum outro país, cuja "elite intelectual" esperava tal atitude dos americanos, já se pronunciou oficialmente a respeito (excluindo os óbvios suspeitos anti-Turquia, como a França e a Alemanha)?
Resenha: Por que os intelectuais não amam o liberalismo, de Raymond Boudon
Ok, esse não é um livro denso, e eu não sou um conhecedor do assunto, mas muito mais um interessado opinionado. Apesar de a obra de Raymond Boudon ter sido ao menos em parte publicada em português, eu não sei se este livrinho já o foi - eu o vi, por acaso, em uma livraria aqui em Roma, e isso explica a estranheza do título: Perché gli intellettuali non amano il liberalismo, que certamente soa estranho em português. Mas a pergunta é interessante, e merece ser colocada: considerando-se que o liberalismo é a corrente política que trouxe mais avanços para as sociedades modernas, que é a filosofia econômica que, aliada ao capitalismo, foi mais bem sucedida na geração de riquezas, e que é uma tradição intelectual que gerou pensadores como Tocqueville, Aron, Weber e Rawls, porque é que todo estudante de ciências humanas e sociais é ensinado a associar liberalismo a satanismo e a renegar boa parte dos progressos experimentados pelas sociedades ocidentais de finais do século XVIII em diante?
As respostas de Boudon não primam pela sofisticação, mas ele não deixa de apontar alguns elementos interessantes. Sendo um sociólogo das idéias, Boudon dividiu seu livro em duas partes: a oferta de idéias por parte de intelectuais, e o consumo de idéias por parte de intelectuais. De uma maneira geral, seu argumento é que ao contrário do Freudismo, do Marxismo, do Estruturalismo e do Pós-Colonialismo pós-moderno, entre outros, o liberalismo se preocupa em descrever fenômenos sem apontar culpados para os problemas de nossa sociedade. Por outro lado, pensadores liberais não têm o charme de mâitres-a-penser como Sartre, Benjamin, Lévi-Strauss ou Freud,e apesar de sua importância, suas idéias não tiveram o eco que merecem.
Bom, essa é uma caricatura de um livro que faz uma caricatura. Se me lembro bem, não existe nada de simplista em O Pensamento Selvagem ou n`O Capital, mas é interessante que existe muito de simplista nas obras de seus seguidores. A discussão de Boudon não funciona tão bem quando se pensa nos grandes pensadores, mas faz sentido quando se considera o panorama intelectual nas universidades européias, americanas e brasileiras. O número de marxistas que não entendem Marx é enormemente superior ao daqueles que o entendem, e é entre estes que proliferam acusações do tipo: se você é liberal você é contra a idéia de justiça social. Isso é uma coisa que tem me interessado cada vez mais, como é que nossa sociedade tem se jogado contra suas mais importantes contribuições para a História, com H maiusculo. Democracia, liberdade econômica, liberdade de consciência e religiosa, estes são valores em baixa, a crer no que anda aparecendo em jornais como o Guardian, o New York Times, e L`Osservatore Romano. Nesse sentido o livrinho de Boudon é excelente, ao colocar de maneira clara uma contradição que deveria trazer perplexidade ao invés de satisfação e excitação intelectual: como é que intelectuais ocidentais se voltam contra aquilo que existe de melhor em sua própria sociedade, buscando criticar aquilo que identificam como o mal maior (imperialismo, capitalismo, etc.).
O Na Prática lançou um meme, e eu pretendo dar continuidade a este troço. Trata-se do seguinte: eu devo pegar o primeiro livro que estiver a mão, não vale escolher. Abrir na página 161, e postar aqui a 5a frase completa da página. Eu normalmente trabalho na biblioteca, o que seria interessante. Hoje, por coincidência, estou trabalhando em casa, mas felizmente tenho minha bolsa do computador do meu lado. E... tcha-rããã, tenho um livro especial aqui comigo, que aliás vou resenhar quando tiver acabado de ler. O livro é The Beginnings of Rome, do Tim Cornell, e a frase é:
"Some deities, such as Vesta, were never represented in human form, while others, particularly those belonging to collective groups such as the Lares and Penates, were little more than functional abstractions."
Finalmente estou de volta à biblioteca. A última semana foi dedicada a um tour sobre a Roma Antiga, com 21 turistas ingleses, idade média de 73 anos. Essa é a média, é claro, e por aí você pode imaginar a dificuldade que foi andar pelas ruas de Roma com esse povo.
O programa de visitas foi muito intenso, e ainda não entendi qual santo fez com que todos os turistas sobrevivessem, alguns deles depois de subir o Palatino com uma bengala. Até as chamadas visitas "opcionais" foram tratadas como obrigatórias, com a presença de quase todos eles. De fato, o que mais me impressionou foi o entusiasmo do grupo, e isso me fez pensar nos turistas que eu normalmente tenho em Roma, americanos, também entusiasmados por andar horas vendo ruinas e aprender mais. Na verdade, eu deveria dizer, isso me fez pensar nos turistas brasileiros que chegam aqui em Roma completamente sem idéia do que vão ver, e não mostram grande interesse quando estão por aqui.
É claro que existem exceções, mas eu tenho a impressão de que o conceito de pagar um preço muito mais caro por um tour com um especialista em um período histórico ou em um tipo de estilo artístico é uma coisa muito distante da realidade brasileira. Meus turistas às vezes chegam do aeroporto pro hotel, deixam as malas no hotel, comem alguma coisa, e já estão lá. às 9 da manhã, ouvindo sobre Rômulo, Remo, e a história da Roma arcaica. Não é fácil para mim, mas certamente não é fácil para eles.
Não sei se esta impressão é correta, ou se é apenas uma distorção que resulta de minha experiência. O número de brasileiros em Roma pode estar crescendo, mas ainda é pequeno em comparação com o de países desenvolvidos. Brasileiros em geral pagam mais caro para chegar aqui, e a tendência é inserir diversas paradas na mesma viagem (mas isso também é o caso de americanos). Talvez a proporção de membros da elite brasileira que podem pagar por esse tipo de turismo, com relação à elite brasileira como um todo, seja a mesma que existe no caso de americanos e ingleses. Ou talvez a elite brasileira só esteja interessada em vir a Roma, ver o COliseu, São Pedro, comer Pizza, bater pernas e olhar as vitrines. Uma opção perfeitamente legítima, mas que diz muito sobre quem somos.
A credibilidade deste blog anda baixa, pois não tenho colocado nada por aqui. Até mesmo o presidente, o senador, e o marco polo pararam de me visitar, pelo visto! Passei estas últimas semanas preparando um tour para um grupo de ingleses que chegarão em Roma daqui a duas horas, e eu terei que passar a semana com eles, dormindo no mesmo hotel, inclusive.
Pelo que eu vi, o hotel tem internet, e eu estou levando meu computador. Se der, postarei de lá, pois terei as noites de tédio para me dedicar a esta bodega.
Agora, se você está lendo isto aqui, é porque merece algum conforto. Aqui está, Beaker cantando "Mimi" ' um clássico imperdível.