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Sexta-feira, Setembro 21, 2007
Tenho andado fora do ar, e há muito tempo não coloca nada por aqui. Peço desculpas à minha legião de leitores. O problema é que no momento estou tentando preparar um curso de uma semana, um paper pra uma conferência, dois artigos e um livro, tudo para ontem. Enfim.
posted by Guto 10:35 AM
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Quinta-feira, Setembro 06, 2007
O problema com a Itália
Durante nossa visita à Sardenha, Lizzie e eu fomos a um dos lugares mais bonitos que eu já visitei, as ilhas de La Maddalena e Caprera (fotos aqui, aqui e aqui). Lá conheci um sujeito boa praça pra caramba, chamado Gege (vou manter o apelido para evitar um processo).
Gege nasceu em La Maddalena, uma ilha com uma cidadezinha com 10 mil habitantes. Estudou ali mesmo, começou a trabalhar ainda garoto, conseguiu um emprego no governo. Casou-se com a filha de um militar da marinha que se mudou pra lá, e não saiu da ilha nem quando a filha foi estudar no exterior. Gege se aposentou aos 35 anos. Nos últimos 20 anos, com sua aposentadoria, construiu pouco a pouco uma casa espetacular, ao mesmo tempo em que adquiriu, por usucapião, a propriedade da casa onde morava e que pertencia ao governo. Gege tem mulher, dois filhos crescidos muito maneiros, um cachorro chamado Poldo. Sai de casa todos os dias as 9 da manhã, sobre no seu barco, e vai pescar. Volta às 5 da tarde, toma banho, janta, e vai dormir. Quando chove, fica em casa e ve televisão. Falando sério, é o homem mais feliz que eu já encontrei.
Aí a Liz me perguntou: "Não é uma vida maravilhosa?" Bom, a verdade é que não, não é. O governo italiano está tentando recriar todo o sistema nacional de aposentadoria, porque está falido, e casos como os de Gege não são poucos. O problema é que Gege realizou o sonho de boa parte da humanidade, vive no paraíso, é feliz, amado pelos amigos e tem o respeito da comunidade. Em um lugar como a Itália, pode comer bem, seus filhos estudaram em boas escolas, enfim, não tem nenhum incentivo para abandonar a aposentadoria e voltar a ralar (por exemplo, virar torneiro mecânico). Por outro lado, milhões de pessoas vivem em verdadeiros infernos, onde o Robert Mugabe é o presidente, trabalham o dia inteiro e passam fome. Existe algum argumento capaz de muda a cabeça dos italianos?
Ps: e será mesmo caso de mudar?
posted by Guto 3:13 PM
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Sardenha
Já coloquei no Flickr fotos da nossa viagem à Sardenha. Não tirei muitas, pois o mar, apesar de lindo, também cansa. As minhas preferidas são as primeiras que tiramos, do navio. Eu nunc atinha andado em navio, e meus conhecimentos náuticos se resumem a filmes do Simbad na sessão da tarde, Júlio Verne, e o espetacular Caçada ao Outubro Vermelho (e veja que tanto o Nautilus quanto o Outubro Vermelho eram submarinos!). A Barca, que tantas vezes me fez cochilar entre o Rio e Niterói, não conta: aquilo não é mar, e aquilo não é navio.
A primeira coisa impressionante foi o tamanho do bicho: 4 andares só para automóveis! Os passageiros sobem por uma escada rolante, e a primeira coisa que encontram é a recepção: para mim, nascido em Resende, a idéia de um navio com recepção era tão absurda quanto a idéia de um hotel com âncora. Voila, mal posso esperar para achar a âncora de um hotel. Lá dentro, como somos pobres e limpinhos, compramos passagens para a cabine de primeira classe. a diferença entre primeira e segunda é de 20 euros, a viagem dura 5 horas, e o mais incrível é que os italianos, gregários por natureza, não ficam nem em uma nem em outra. Compram passagens sem assentos, porque assim passam 5 horas andando de um lado para o outro e fazendo aquilo que gostam mais, ou seja, falar e gesticular ao mesmo tempo. Mas aí você pergunta: o que fazer em caso de iceberg à vista? Bom, a primeira coisa que eu fiz a bordo foi identificar o método mais rápido de salvar minha pele.
Uma coisa eu não pude deixar de observar: o sistema de rádio tocou aquela música horrorosa da Celine Dion duas vezes.
posted by Guto 3:02 PM
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Uma coisa que esqueci de contar, sobre a viagem à Tunísia, foi algo que nos aconteceu no Museu do Bardo. Uma das coisas espetaculares do museu é que todas as paredes são cobertas de mosaicos, em todos os lugares. Bom, chegando lá, eu saí tirando fotos e fazendo minhas anotações, tipo proveniência, data, etc. Tirei também algumas fotos da Sra Amiano, ela tirou outras de mim. Mas aí, quando eu ia tirar uma foto dela em frente a um mosaico que originalmente decorava uma fonte, um dos seguranças veio correndo, sorrindo, e ofereceu de tirar nossa foto. Por um minuto pensei que o cara quisesse minha câmera, mas logo vi seu crachá e pensei, "beleza"! Eu e a Liz posamos na frente da tal fonte.
Qual não foi nossa surpresa quando o cara começou a gesticular e a falar, em francês, pra gente entrar na fonte. Bom, a idéia de pisar em um mosaico romano, pisando em uma imagem do deus Oceano, não é uma das mais recomendáveis, mas como é que você diz isso pro sujeito que é teoricamente responsável por cuidar destes mosaicos? Entramos na fonte. Mas ele não parou: fazendo gestos repetidos, indicou que deveríamos nos sentar na borda da bendita fonte, uma área também decorada com mosaicos. Eu e a Liz nos olhamos, "aí também já é demais", mas ele não se deu por vencido. Ok, sentamos. O cara tirou a foto (esta aqui), e nós saímos da bendidta fonte rapidinho.
Os tunisinos são muito simpáticos, o cara foi logo puxando conversa em uma mistura de francês com inglês. Perguntou de onde somos: Brasil e Irlanda. Ah, a Irlanda. O sujeito imediatamente disse "tip! tip!" A Liz foi surpreendida: sendo de Tipperary, poucas pessoas reconhecem seu sotaque. O que o cara queria, na verdade, não era mostrar seu conhecimento de geografia irlandesa, mas sim uma gorjeta (tip). Serviço pago, continuamos naquela área. Um casal que nos viu sair da fonte veio correndo, a mulher pulou ali dentro, o cara foi bater a foto... quando o vigia (sim, o mesmo!) veio e disse, muito sério, que aquilo não era permitido.
Moral da estória: em um país (muito) estranho, nunca faça aquilo que você quer, logo de cara. Eventualmente os locais vão te oferecer até mesmo o que você não espera. Tenha trocado no bolso (descobri depois que minha gorjeta foi a maior já oferecida por um estrangeiro no Norte da África: a gente tinha acabado de aterrissar e eu ainda estava confuso com o câmbio). E, o mais importante, jamais espere lógica de funcionários públicos: o que vale para você pode não valer para os outros e vice-versa.
posted by Guto 2:50 PM
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Terça-feira, Setembro 04, 2007
Enquanto isso, no reino da Dinamarca...
... intelectuais, ONGs, e alguns países se reúnem no Peru em uma conferência que visa banir a produção e o uso de "cluster bombs" (como se traduz isso?), aquelas bombas que quando detonadas liberam várias outras bombas, causando muito mais mortes do que uma bomba convencional (tem um link na Wikipedia (em inglês, e note que ainda não foi revisto por um especialista no assunto)). O maior problema é que estas bombas, além de desumanas (até aí, todas o são), muitas vezes não detonam, causando mortes de civis mesmo após o fim de um combate (tem esta reportagem do USA Today sobre um caso no Iraque).
Bom, como a reportagem da BBC citada no primeiro link deste post informa, países como China, Rússia, e EUA. grandes produtores, se recusam a assinar este tratado, e já avisaram que nem vão a esta reunião. O governo brasileiro vai, mas se recusa a assinar, argumentando que a ONU é o forum correto para esse tipo de iniciativa. O argumento é lógico, pois não adianta assinar um tratado se os maiores produtores de uma bomba (e os mais prováveis usuários) se recusam a fazê-lo, e na ONU seria possível fazer um acordo envolvendo mais países. Meu problema, ilógico, é que não tenho certeza de que a produção deste tipo de bomba apresente mais do que vantagens marginais para o Brasil, e bani-la unilateralmente seria muito mais interessante. Em qual cenário o Brasil usaria estas armas? Me parece que o interesse é mais o de exportá-las para países africanos e no Oriente Médio do que usá-las contra a Venezuela. Neste caso, sinto muito, mas trata-se de um barbarismo atroz. O governo brasileiro tem procurado assumir a liderança regional (e além) em uma série de discussões. O Brasil demorou 30 anos para assinar o tratado de não proliferação de armas nucleares (foi só com o FHC!). Por que não tomar a iniciativa agora e assumir a liderança moral desta discussão? A maioria dos conflitos daqui pra diante será ou entre Estados e grupos para ou não estatais, tipo al Qaeda, ou envolverá outro tipo de armamento. Se o argumento for para manter uma indústria bélica potencialmente lucrativa, mas moralmente falida, não vale mais a pena reduzir a cotação do dólar? Pode ser economicamente estúpido, mas pelo menos não manda crianças para hospitais.
posted by Guto 10:38 AM
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PT, saudações
Dois posts interessantes no site do presidente, meu consultor para assuntos aleatórios (é verdade, de literatura à transição para a economia capitalista no leste europeu!). O primeiro, sobre o retorno dos que não foram, o processocontra o mensalão no Supremo. O outro, sobre a importância do PT, o único partido genuinamente de massa no Brasil, e a melhor alternativa para a esquerda brasileira (ainda), e a necessidade de repensar o partido.O problema é que a própria definição do "partido" como sendo "dos trabalhadores" mostra que a concepção de esquerda aí ainda é atrelada a movimentos sindicais e basta, que a revolução vai ser feita pelas classes oprimidas pela exploração capitalista, e que você deve conquistar o Estado e usá-lo como instrumento de classe. O que, veja bem, tem tudo a ver com a corrupção generalizada que lubrifica as relações entre Executivo e Legislativo e as próprias operações do Executivo no dia a dia do governo. É uma prática que serve muito bem a corporativistas de esquerda e direita, que foi seguida pelos governos anteriores desde, deixa eu ver, o Governo Geral, mas que foi abraçada sem reticências pelo atual governo (segundo as evidências disponíveis no momento de postagem - não quero ser processado pelo Dirceu!). O problema é criar, ou refundar, um partido no qual idéias "hippies" e "polianescas" como moralidade, princípios éticos, preservação do meio ambiente, direitos de minorias (aborto, casamento gay, ou seja, liberdades individuais), etc etc sejam não só um item no programa do partido, mas elementos que ajudem a estruturar esse partido. e quando isso é feito, finalmente, tem que vender para a população a idéia de que estes princípios são importantes, o que não é uma tarefa fácil. O problema, tão óbvio que frequentemente é ignorado, é que o Brasil não precisa só de uma reforma política, de menos partidos, mais partidos, novos partidos, mas de uma nova classe política, e de uma nova cultura política. Em algumas civilizações no passado isso foi motivo pra fechar a loja e chamar os bárbaros, mas não se desesperem. No Brasil, eles já estão batendo na porta.
posted by Guto 9:10 AM
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Como esperávamos...
...nós e a torcida do Flamengo: o Globo começou a cobrar na semana passada. Ou seja, para ler a excelente cobertura jornalística de um dos maiores jornais do Brasil, agora Amiano terá que pagar 35 merrecas por mês. Bom, é claro que Amiano não irá fazê-lo. Em primeiro lugar, porque a única coisa que eu normalmente leio no Globo é a coluna do Elio Gaspari, e realmente ficar sem lê-la não vai necessariamente tornar-me menos informado do que já sou. Em segundo lugar, só que MUITO mais importante, NINGUÉM tem que pagar pra ser bem informado hoje em dia. O tempo do jornalismo investigativo acabou, se é que alguma vez foi importante no Brasil. A maioria dos jornais só faz repercutir outras mídias, e boa parte do que o Globo noticia sai de blogs de jornalistas e comentaristas políticos. O Brasil, infelizmente, é um país onde comentário de jornalista é tratado como notícia. É muito mais jogo ler blogs como o do Noblat, o do Josias de SOuza, do Fernando Rodriguez, olhar sites gratuitos, etc. A BBC Brasil noticia mais do que o básico (e muitas vezes o Globo online usa a BBC como fonte). Sobre futebol? Bom, faz tempo que o Fluminense não merece minha atenção, mas ainda temos o glorioso Juca Kfouri. Enfim, este é apenas um pequeno alerta para todas estas "empresas jornalísticas" que estão metendo os pés pelas mãos. Parafraseando o que eu gosto de dizer sobre greves nas universidades públicas, no momento em que jornais digitais começam a colocar um preço na informação que eles vendem, eles fazem seus leitores refletir sobre o valor da informação. Esse é o primeiro passo para que o público descubra sua irrelevância.
posted by Guto 8:52 AM
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Livraço (seguindo o exemplo do Na Prática, agora versão 2.0)
Acabei de ler ontem Legacy of Ashes, do Tim Weiner, repórter do New York Times. O livro é uma história devastadora da CIA, e reúne horas de entrevistas e uma documentação impressionante. O argumento do livro, de fazer qualquer um arrancar os cabelos, é o de que longe de ser a super-poderosa agência secreta envolvida em conspirações e golpes de espionagem ao redor do mundo, a CIA é uma agência que falhou em quase tudo o que tentou fazer (além de ter fomentado morte e corrupção ao redor do globo). Detalhe importante: o tom do livro não é contra a CIA, mas um alerta para a necessidade de um serviço de inteligência confiável.
A História é de que, até o fim da 2a guerra, os EUA não tinham um serviço de inteligência, enquanto os russos e os ingleses já vinham operando o seu há séculos. A CIA foi criada para preencher esse vácuo, baseada em dois elementos: espionagem/inteligência e intervenções diretas (secretas). Com isso, foi dividida entre alunos de pós das melhores universidades americanas e "gung-ho" militares com mentalidade à la Rambo. Falhou nas duas áreas: nunca conseguiu infiltrar a União Soviética (mas sempre esteve infiltrada), e suas "covert operations" eram conhecidas por todos. A bomba atômica russa, chinesa, a revolução cubana, a guerra da Coréia (os agentes tinham certeza de que a China não iria intervir - deu um cacete nos americanos) e do vietnam, são apenas alguns dos exemplos. Os Kennedys (John e Bobby) passaram o tempo todo organizar tentativas de assassinar Fidel e falharam, a CIA sabia que a Baia dos Porcos ia ser um fracasso e não contou a ninguém. Nixon, Ford, Reagan e Clinton ignoraram a agência, por diversos motivos: porque dava informações erradas, porque mentia para garantir sua reputação, e porque violava direitos humanos (no caso do Clinton, mas o livro mostra que ele ignorou a agência na Somália e na Bósnia, o que levou a enormes genocídios). Carter (quem diria) e Bush pai prestaram mais atenção à CIA, mas mesmo aí a agência falhou.
O que isso tem de importante? Sabe aquela estória de que o preço da liberdade é a eterna vigilância? Não dá pra um país que nem o Brasil não ter boa informação sobre o que está acontecendo ao redor, sobre a Venezuela, Argentina, sobre o Oriente Médio, sobre a ação de terroristas islâmicos na área das três fronteiras, etc. Quando movimento dos sem terra e estudantes universitários podem invadir edifícios públicos sem aviso prévio, quando milícias podem botar o terror no Rio de Janeiro, bom, isso quer dizer que se está perdendo o controle.
posted by Guto 8:42 AM
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Acabo de chegar da Sardenha, onde a senhora Amiano e eu passamos 4 dias. Vou colocar as gotos no Flickr em breve: eu nunca vi um mar tão bonito. Ficamos na área de Gallura, no Norte da Sardenha, e depois pegamos um barco e fomos para La Maddalena, uma ilha ali perto.
posted by Guto 8:25 AM
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Amiano Marcelino

Uma etnografia dos povos barbaros
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