


|

Quinta-feira, Junho 28, 2007
Algum tempo atrás eu coloquei um post aqui em que eu falei dos autores do grupo de estátuas encontrado em Sperlonga, escultores que também são responsãveis pelo Laocoonte, no Vaticano. Uma coisa legal que eu vi no Museu de Nápoles foi este mosaico mostrando músicos ambulantes, que foi encontrado na assim-chamada vila de Cícero, em Pompéia. O que me chamou a atenção é que este mosaico também possui a assinatura do seu autor, Dióscurides de Samos (nesta foto aqui).
Esse tipo de informação é de enorme importância para a história da arte. Muitos historiadores da arte moderna tem o preconceito de que não existia individualidade, nem estilo individual na antiguidade, que esse tipo de coisa só apareceu com a modernidade, e até existem bons argumentos para isso. Para dizer a verdade, não existiu nenhum Michelangelo na antiguidade, alguém capaz de mandar o Papa plantar batatas. Mas é inegável que esse tipo de informação, assim como as fantásticas notas biográficas compiladas por Plínio o Velho, dão uma visão muito mais complexa do que era a arte antiga.
Se por um lado existiam estilos bem rígidos, e o papel do comprador era determinante na realização da obra (um mosaico ou uma estátua, por exemplo), por outro lado é claro que alguns nomes viraram "grife", e que outros indicam uma maior autonomia do artista. O famoso mosaico mostrando a batalha entre Alexandre o Grande e Dario, encontrado na Casa do Fauno em Pompéia, por exemplo, é uma cópia de época romana de um original helenístico, talvez até uma pintura. Mas o que é impressionante é que o artista original, seja ele quem for, teve a idéia de incluir a imagem de um soldado caído durante a batalha, que vê o seu próprio reflexo no escudo (aqui). Se isso não é o lampejo de um gênio, então não sei como definir.
posted by Guto 6:41 PM
Fale que eu te escuto:
• • • • •
Acho que o Museo Nazionale Archeologico di Napolié um dos melhores museus do mundo. Qualquer pessoa interessada em antiguidades e que vem a Roma tem que pegar o trem (o TAV custa 33 euros e leva 90 minutos pra chegar lá, o museu fica a uma parada de metrô da estação central), pois as coisas que vê lá não existem em nenhum outro lugar: a coleção de escultura da família Farnese, incluindo o Hércules e o Touro Farnese (aqui e aqui), afrescos e mosaicos de Pompéia, inscrições gregas e latinas, enfim, antiguidades para todos os gostos.
Uma das salas mais populares é o chamado Gabinete Secreto, onde ficam as pinturas e mosaicos eróticos que fazem parte da coleção do museu (tem que reservar visita na entrada do museu). A coleção é realmente impressionante, consistindo principalmente de cenas mitológicas, faunos, sátiras, ninfas, deuses, etc. Existem centenas de livros e estudos sobre estas imagens, e seu status na cultura romana, mas o que me interessa mesmo é o que elas revelam do lado mais humano (no sentido de sórdido) da vida em uma cidade romana, como imagens que hoje em dia seriam consideradas pornográficas eram inseridas em salas e quartos que faziam parte do dia-a-dia dos habitantes de Pompéia e Herculano. E foi isso o que fez com que eu me interessasse por este afresco. A imagem está meio fora de foco, porque não pude usar flash (motivos óbvios), mas está clara o suficiente para dispensar descrições. Este afresco decorava um bordel em Pompéia, uma espécie de decoração diretamente ligada ao contexto e à função do lugar onde estava exposta. Mas o mais legal é que alguém deixou um grafite (não sei se dá pra ver na foto), com a instrução "lente impelle", algo como "põe devagar".
posted by Guto 10:56 AM
Fale que eu te escuto:
• • • • •
Já faz algum tempo que os jornais italianos têm falado da terrível crise na coleta de lixo na área ao redor de Nápoles, a Campania. Os terrenos onde o lixo coletado era despejado estão cheios, nenhuma cidade quer ceder seu território para novos depósitos, nem mesmo para incineradores de lixo, e para completar tudo parece que o crime organizado está envolvido nesta atividade. Mas foi quando eu saltei do metrô em Pozzuoli que eu percebi o tamanho do problema. A cidade fede de um modo que eu nunca vi igual. Pilhas de lixo se acumulam nas ruas, em todas as cidadezinhas, criando um cenário enojante (esta foto foi tirada em Bacoli, antiga Baia): em todos os lugares, mesmo na praia ou subindo os morros, dá para sentir o fedor.
posted by Guto 10:39 AM
Fale que eu te escuto:
• • • • •
Já coloquei no Flickr algumas das fotos das viagens com o Henrique. Num final de semana viajamos pela Toscana, à procura da garrafa perfeita do Brunello di Montalcino. N o outro, nos encontramos em Nápoles.
posted by Guto 10:34 AM
Fale que eu te escuto:
• • • • •
Lendo o jornal
Então a polícia do Rio usou 1350 soldados para invadir o complexo do Alemão, e o Globo (sem link porque eles não deixam copiar e não precisam de propaganda) está comemorando que a operação foi um golpe duro no tráfico, que perdeu um importante arsenal. Foram encontradas 50 unidades explosivas com um detonador, três fuzis, duas submetralhadoras, cinco pistolas, um revólver calibre 38, quatro morteiros, um rojão com um lança rojão, duas metralhadoras calibre 30, além de pólvora, espoleta, e balas. Ou seja, contando uma arma por bandido, existem 18 bandidos desarmados no Rio de Janeiro. E isso foi uma grande vitória?
posted by Guto 9:21 AM
Fale que eu te escuto:
• • • • •
Segunda-feira, Junho 25, 2007
Uma boa notícia na política italiana: Walter Veltroni, o prefeito de Roma, foi apontado líder do recém-fundado Partido Democrático. Ao contrário do DEM no Brasil, que insulta a história da democracia, o PD italiano será formado pela união do Ulivo, a Margherita, e os Democratici di Sinistra, ou seja, os maiores partidos da centro-esquerda italiana. Isso é muito importante: as pessoas que reclamam da fragmentação partidária no Brasil deveriam dar uma lida nos jornais italianos: este é o único país onde até a extrema direita fascista é dividida em diversos partidos que se odeiam (mais comum na esquerda). Foi assim que Berlusconi governou o país por tanto tempo, tendo unido a direita em torno de seu nome, enquanto a esquerda ficou se sabotando. Para a situação ficar mais clara agora só precisa acabar com a proporcionalidade no governo, que faz com que qualquer espirro da esquerda mais radical ou dos antigos Democristiani coloque o governo em perigo.
A indicação de Veltroni é excelente. Roma cresceu muito no seu governo, ele tem bom trânsito supra-partidário, é jovem, tem uma boa equipe, é bom negociador, em suma: tem todas as boas qualidades do atual primeiro ministro, mais uma: você consegue assistir a uma entrevista dele sem cair no sono depois dos primeiros 15 minutos. O perigo é justamente este: ele corre o risco de ficar exposto às fraturas internas que todo mundo espera que comecem no dia 15 de Outubro (o partido está marcado para ser formalizado no dia 14), e isso poderia torná-lo uma liderança inviável na hora das próximas eleições.
posted by Guto 8:44 PM
Fale que eu te escuto:
• • • • •
Quinta-feira, Junho 21, 2007
Eu estou resenhando um livro sobre cidade italianas na Antiguidade Tardia e Alta Idade Media, e li um artigo sobre as cidades dos Campi Flegrei, a area junto a Baia de Napoles. O artigo e muito interessante, e por isso estava ha um tempo pensando em explorar esta area: as cidades de Pozzuoli, Baia, Miseno, e Cuma. Como elas sao pequenas e umna do lado da outra, minha ideia inicial era tentar fazer tudo em um so dia.
Durante esta semana, no entanto, percebi que isso nao seria possivel. Uma amiga que esta escrevendo uma tese sobre esta area me disse que eu precisaria de ao menos dois dias, e tudo o que eu li me mostrou que ela estava certa. A isso, some-se a ineficiencia dos meios de transporte italianos, e so consegui fazer uma cidade e meia hoje: apesar do que os guias de viagem e os mapas dizem, nao existe nenhum trem ligando Napoles a Baia ou Misenum. Por isso, hoje sai de Roma as 7:30 da manha, e cheguei em Napoles as 9. Daqui, peguei um trem ate Pozzuoli - como eu ja havia visitado esta cidade e vi quase tudo o que eu queria, desolvi deixa-la para o fim. De la, tive que pegar o trem para Baia, mas isso envolveu pegar um onibus e ir para uma estacao de trem do outro lado da cidade. O problema e que, apesar da boa vontade de todo mundo que me deu informacao, o trem teimoso nao chega ate Baia: para em Fusaro, e de la eu tive que pegar um onibus ate Baia. Ou seja, minha mega aventura arqueologica so comecou ao meio-dia!
posted by Guto 10:03 PM
Fale que eu te escuto:
• • • • •
Para ser sincero, usar transporte publico na area de Napoles e encontrar uma tese de doutorado em antropologia social ja escrita, na sua frente. A area e extremamente pobre, a arquitetura e horrorosa, e a destruicao das belezas naturais deixaria o Cesar Maia morto de inveja. Ninguem respeita nenhum regra ou lei, todo mundo fala aos gritos num dialeto dificil de entender, e a populacao parece consistir de 55% menor de 17 anos e os restantes 45% maior de 75 anos. Mas essa ainda e a parte mais interessante da Italia. As mulheres sao as mais bonitas que eu ja vi - Sofia Loren e de Pozzuoli, e la ela nao se sobressai -, sorriem o tempo todo. Todo mundo e solicito, voce pede uma informacao e logo tem um comite discutindo qual e o melhor modo de voce chegar na stacao de Trem (e a informacao que dao e errada!).
Eu estava tentando chegar a um sitio arqueologico, o parque monumental de Baia, que pelo nome eu inocentemente imaginei que seria facil de achar. Depois de subir 1 km de morro debaixo do Sol, eu ja estava desistindo, quando rsolvi pedir informacao pra um senhor que estava em pe, na rua, lendo um cartaz. "E claro que eu sei", ele disse, "eu te levo la". O cara entrou no carro, abriu a porta, e eu aceitei a carona, baseado no principio de que o meu cheiro naquele momento era o melhor patua ja imaginado. Ele parou na frente de um portao velho, e disse, orgulhoso, "E aqui. Pode explorar a vontade, que a vista de la de cima e a mais linda do mundo". Eu subi, subi. Subi, subi. Ate que um cachorro comecou a latir sem parar, e eu desci correndo.
Quando eu estava desistindo, resolvi seguir um outro caminho. Subi, subi, subi e achei o tal complexo. Minha decepcao nao podia ser maior: a vista era linda (quando voltar coloco fotos no Flickr), mas as ruinas nao eram nada impressionantes. Para piorar, tinha um grupo de operarios excavando na area, e uma senhora que parecia ser a arqueologa responsavel. Eu nao quis perder a viagem, por isso fui ate ela e perguntei se podia andar pelo lugar. E ai que estar em Napoles faz a diferenca: ela nao so disse que eu podia (nao acontece em Roma de jeito nenhum), mas ainda comecou a me mostrar o lugar ela mesma. Trata-se de uma villa construida com terracos e fontes monumentais, e a tecnica de construcao e decoracao indicam qu foi construida no seculo I a.C. O mais interessante e que, segundo Suetonio, Julio Cesar tinha uma villa naquele exato local, e e bem possivel que aquela villa tenha pertencido a ele!
posted by Guto 10:01 PM
Fale que eu te escuto:
• • • • •
Estou aqui em Napoles em um albergue da juventude estranho com uns computadores esquisitos, por isso vou digitando sem acentos e com mais erros do que de costume. Eu so devia vir amanha, sexta-feira, mas a trenitalia anunciou uma paralizacao ampla, geral e irrestrita, e por isso antecipei minha vinda em um dia. O albergue e razoavelmente limpo, o pessoal e legal, mas meu quarto tem 6 camas, todas ocupadas por uns adolescentes fedidos. Eu ate pensei em reclamar, mas ai lembrei que a culpa e minha que sou pao duro (16 euros a noite), porque nao tenho mais idade pra isso. Amanha me junto ao resto do Amiano team 2007, e faco um upgrade.
posted by Guto 9:41 PM
Fale que eu te escuto:
• • • • •
Quarta-feira, Junho 20, 2007
Hoje durante um tour os clientes me disseram que tinham chegado a Roma ontem à tarde, tinham dado uma volta pela cidade, e que já iriam embora amanhã de manhã cedo. Ou seja, só tiveram ùm dia e meio para ver Roma. Hoje de manhã eles estiveram comigo, e visitamos o Forum Romano, o Palatino e o Coliseu, mas eles estavam em dúvida sobre o que fazer à tarde, e perguntaram se deveriam visitar os museus do Vaticano (sim, porque tem mais de um).
O problema com o Vaticano se resume a duas palavras: capela Sistina. Se não fosse por ela, eu diria a todo mundo que vem a Roma para fugir daquela massa de gente em fila, debaixo do sol, que luta para entrar num lugar, pagar 16 euros para ficar espremido como uma sardinha vendo obras-primas amontoadas como se fossem lixo. O problema é que eu não gosto dos museus do Vaticano. Para os especialistas, aquele seria o melhor museu do mundo. Mas é impossível ver qualquer coisa com cala: tem sempre um grupo de 200 pessoas seguindo um guia com uma bandeira, ou um bando de adolescentes fazendo poses idiotas na frente da câmara.
O ponto culminante é a capela Sistina, uma das maiores realizações do espírito humano. Se Deus não existir (e eu permaneço aberto para argumentos contra e a favor), tem que ser inventado, para fazer juz à obra de Michelangelo. O problema é que dentro da capela existem multidões de turistas, gente tirando foto, seguranças com megafones gritando pra gente fazer silêncio, um inferno. Céu e inferno juntos, literalmente.
posted by Guto 6:08 PM
Fale que eu te escuto:
• • • • •
Nem bem cheguei e já estou de partida de novo: eu vou para Nápoles amanhã cedo, e de lá parto direto pra Pozzuoli e Baia: a primeira cidade eu já visitei, mas não deu pra ver tudo da última vez; a segunda é a primeira vez que vou visitar. Na Sexta de manhã visito o Museu Arqueológico de Nápoles, porque tem um milhão de coisas pra ver e eu não me canso de ir lá, e encontro o Henrique e a Mariana na hora do almoço. Passamos a tarde em Pompéia e na volta encontramos a Liz. Dormimos em Nápoles, e no dia seguinte fazemos um giro rápido pela cidade, antes de voltarmos a Roma.
posted by Guto 5:02 PM
Fale que eu te escuto:
• • • • •
Segunda-feira, Junho 18, 2007
Uma igreja pouco visitada em Roma é a igreja de San Nicola in Carcere. É uma pena, porque a igreja fica bem no centro da cidade, a poucos metros do Campidoglio e a poucos passos do teatro de Marcello e da zona arqueológica que leva até o gueto (a igreja aparece meio escondida neste mapa aqui, porque é a adaptação de um mapa que usei em um artigo). Ninguém sabe ao certo quando a igreja foi fundada, mas já se ouve falar dela desde o século VII. A Arquitetura é bem legal, apesar de ter sido restaurada várias vezes: a fachada é de 1599, obra de Giacomo della Porta (informações sobre ele na Wikipedia italiana, a portuguesa não diz nada de útil).
Mas o que é mais legal desta igreja é que ela foi construída em cima de três templos romanos, na área do antigo Forum Holitorium, o mercado de verduras da cidade, bem pertinho do porto antigo. E isso fica óbvio assim que se olha pra igreja: a foto da fachada, por exemplo, mostra as colunas do templo de Spes, construído por volta de 254 a.C. (e reconstruído em 17 d.C.). Do lado oposto da igreja dá para ver as colunas do templo de Janus, de 260 a.C.: as colunas foram simplesmente incorporadas na parede da Igreja (essa parede sendo parte do edifício construído em 1128). Embaixo da Igreja, fica o templo de Juno.
E é exatamente embaixo da Igreja que as coisas ficam mais legais: se você entrar na Igreja, esperar um dos voluntários simpaticíssimos que ficam por ali, e pagar uma "oferenda" de 2,50 euros, eles te levam até o subsolo, onde se pode ver os restos dos três templos (bom, na verdade só de dois, porque do templo de Spes não tem muito para ver mesmo). O pódio do templo de Janus, por exemplo, construído em travertino (certamente na fase dedicada por Tibério em 17 d.C.). Entre este templo e o templo de Juno tem uma ruela muito estreita, e o pódio do templo de Juno é construído em cima de uma série de câmaras super resistentes, construídas com travertino e tufa (respectivamente, uma pedra calcárea e uma pedra vulcânica, ambas muito comuns em Roma), que alguns estudiosos acham que era uma série de caixas-forte, usadas como cofres pelos comerciantes do mercado no Forum Holitorium.
Ah, e tem coisa para ver em cima da Igreja também: se você for simpático com o pessoal que está mostrando a área, eles podem até te deixar subir no topo da Igreja, onde você pode ver uma vista magnífica e também a arquitrave em tufa, com pequenos buracos onde a decoração em metal era encaixada.
Ah, caso alguém seja interessado na igreja em si: as colunas de mármore, re-utilizadas de outros templos, são espetaculares, e os guias da Igreja vão ficar muito contentes em te contar que a Igreja é dedicada a São Nicolau, um santo que foi executado pelos romanos na Turquia, cujas relíquias estão em Bari, e que está na origem do Santa Claus.
posted by Guto 8:48 AM
Fale que eu te escuto:
• • • • •
Domingo, Junho 17, 2007
Ok, foi um final de semana altamente etílico. Não se dirige até Montalcino, a terra do Brunello, impunemente. Mas posso garantir, em defesa da reputação deste Blog, que a viagem também teve um conteúdo cultural (eu acho, não lembro bem). Montalcino é uma das cidades mais ilustres da Toscana, e até hoje tem uma posição privilegiada no Palio de Siena porque conseguiu, de alguma forma, resistir ao assédio das tropas do Sacro Império Romano-Germânico e da família Medici, que dominava Florença, em 1553, na campanha em que as duas superpotências da época conquistaram e quebraram de vez a independência de Siena.
A cidade é linda, cercada por uma muralha imponente, com uma fortaleza fantástica, e cercada por vinhedos e oliveiras. Em breve, coloco fotos no Flickr. Mas só durante a semana, porque amanhã partimos para Assisi e Orvieto, numa excursão eno-eclesiológica: beber vinho branco (chega de tinto :-) e visitar igrejas medievais.
posted by Guto 10:58 PM
Fale que eu te escuto:
• • • • •
Ok, assim fica desleal. O Na prática a teoria é outra mandou um email para o secretário de relações internacionais do PT, Valter Pomar, criticando a posição do PT frente à iniciativa do Chavez de não renovar a concessão da rede de televisão RCTV, que frequentou os jornais brasileiros. E o cara respondeu!! Dêem uma olhada lá. O Na prática matou a cobra e mostrou o pau: no contexto do que está acontecendo na Venezuela, a atitude da esquerda sul-americana diante do Chavez é inaceitável, uma afronta à democracia, imolada no altar do anti-americanismo vulgar. Enfim. Eu não consigo dar minha opinião sobre esse assunto. Eu acho que em algum lugar, em um livro de filosofia, deve ter um impedimento ético e moral para justificar as iniciativas do Chavez.
posted by Guto 10:51 PM
Fale que eu te escuto:
• • • • •
Sexta-feira, Junho 15, 2007
Estou de partida, daqui a duas horas, rumo a Chiusi. Lá, encontro o Henrique, e vamos para Montalcino, na Toscana. Volto no Domingo.
posted by Guto 2:39 PM
Fale que eu te escuto:
• • • • •
Estou lendo Pictures from Italy, do Charles Dickens. O livro é uma descrição de sua viagem pela Itália no ano de 1844, vindo da França. Eu não gosto do Dickens, acho ele e quase todos os seus contemporâneos muito prolixos, mas este livro é bem legal (pelo menos até aqui): ele se concentra em descrever as pessoas que encontra, os lugares que vê, as condições da estrada, o tempo, etc. A narrativa de sua partida de Paris é um ótimo exemplo:
"Uma vez livre do inesquecível e imperdoável pavimento que rodeia Paris, os três primeiros dias de viagem até Marselha são quietos e monótonos o bastante. Para Sens. Para Avallon. Para Chalons. O roteiro de um dia é um roteiro de todos os três (...)".
A descrição que ele faz do interior da França, passando por Avignon, é um clássico, inclusive o "duende", a mulher que ele encontrou no antigo castelo dos papas, e que o levou para visitar a sala de torturas da inquisição:
"Ela me guiou até a sala adjacente - um quarto simples, com um teto que se contrai, na forma de um funil, aberto no topo, em direção à luz do dia. Eu pergunto do que se trata. Ela cruza os braços, olha cobiçosamente de maneira assustadora, e me encara. Eu pergunto novamente. Ela olha ao redor, para ver que todo o nosso grupo está aliç senta-se sobre um monte de pedras, levanta os braços e grita, como um demônio, "La salle de la question!" A câmara de torturas! E o teto foi construído com esta forma para sufocar os gritos das vítimas! Oh duende, duende, deixe-nos meditar por um pouco, em silêncio. Paz, duende! Sente-se com seus braços curtos cruzados sobre suas pernas curtas, sobre aquele monte de pedras, por cinco minutos somente, e depois agite-se de novo. Minutos! Segundos não transcorreram no relógio do Palácio quando, com seus olhos flamejando, duende está em pé, no meio da câmara, descrevendo com seus braços bronzeados, uma roda com golpes pesados."
posted by Guto 2:37 PM
Fale que eu te escuto:
• • • • •
Quinta-feira, Junho 14, 2007
Vários turistas me perguntaram sobre isso durante os tours em Roma, especialmente no Palatino, mas só ontem vi esta notícia, uma reportagem do New York Times reproduzida no blog Rogueclassicism: a descoberta do Lupercal, a lendária caverna onde Rômulo e Remo foram trazidos pelo rio Tibre, e onde foram encontrados pela lendária Loba (sobre a controvérsia a respeito de sua data, tem um artigo curto, mas correto, aqui. O problema, é claro, é que a notícia não tem nenhum valor arqueológico: o repórter não fala nada sobre o que foi encontrado, e a única entrevista é com Andrea Carandini, o arqueólogo da Universidade de Roma (La Sapienza) que nos últimos anos têm levado acadêmicos mais céticos à loucura com suas "descobertas" (ou pelo menos o que ele afirma ter descoberto).
As origens de Roma têm atraído grande atenção nos últimos 10 anos, tudo graças às descobertas de Carandini no Palatino. Uma muralha datável no século VIII a.C. levou Carandini a sugerir que a estória de que Rômulo fundou a cidade construindo uma muralha ao redor do Palatino (uma das colinas de Roma) é verdadeira. Nos últimos anos Carandini têm publicado uma série de livros e artigos, especialmente sobre sua nova excavação, onde ele encontrou restos de grandes casas "principescas" dos séculos VIII e VII a.C., e ele acha que estas eram as casas dos primeiros reis de Roma. O problema é que existe uma diferença enorme entre dizer que a cidade foi fundada no século VIII, que uma muralha foi construída para proteger uma comunidade de pastores no topo de uma colina, ou que após a fundação da cidade membros da elite se mudaram para o novo centro político de sua comunidade, o vale do Forum Romano (até então ocupado por necrópoles) e dizer que a lenda é verdadeira, que existiram 7 reis que governaram a cidade entre 753 e 509 a.C. (uma média de um reinado a cada 35 anos, mais ou menos!).
O que eu acho impossível de contradizer é que hoje em dia existe muita evidência provando que a cidade já era enorme por volta do século VII-VI a.C.: as excavações que revelaram o templo de Júpiter Capitolino, que segundo a tradição tinha 54 metros de largura e 60 de frente (maior e mais antigo que o Parthenon em Atenas!) provaram que ao menos no que se refere ao tamanho do pódiodo templo a tradição é correta. Inscrições provam que eventos mencionados por historiadores antigos e negados pela crítica moderna aconteceram mesmo, e a descoberta de um assentamento pré-histórico no Palatino, nos anos 40, mostrou que a tradição de que a cidade foi fundada nesta área é correta. Enfim, tem um monte de trabalho para fazer no que se refere à Roma arcaica e às origens de Roma. Para quem tem maiores interesses nesse assunto, o melhor livro na minha opinião ainda é o de Tim Cornell, The Beginnings of Rome. Para quem tem interesse nas idéias de Carandini, La Nascita di Roma. Ah, sim, para quem ainda não percebeu: tem várias fotos com esse tema no Flickr.
posted by Guto 9:48 PM
Fale que eu te escuto:
• • • • •
O Il Messaggero está colocando nas bancas uma coleção de DVDs chamada I Giorni di Roma, uma série de palestras realizadas no ano passado, cada uma dedicada a uma data importante da história da cidade. A série foi um sucesso de público, uma idéia genial, e os DVDs são excelentes. As aulas vão da fundação da Roma antiga até a segunda guerra mundial, nesta ordem:
1. Andrea Carandini, "21 de Abril de 753 a.C.: a fundação da cidade"
2.Luciano Canfora, "19 de Agosto de 43 a.C.: Otaviano e a primeira marcha sobre Roma"
3.Andrea Giardina, "18 de Julho de 64 d.C.: O incêndio de Nero"
4.Alessandro Barbero, "25 de Dezembro de 800: A coroação de Carlos Magno"
5.Antonio Pinelli, "6 de Maio de 1527: O saque de Roma"
6.Anna Foa, "17 de Fevereiro de 1600: A execução de Giordano Bruno"
7.Vittorio Vidotto, "20 de Dezembro de 1870: a brecha de Porta Pia"
8.Emilio Gentile, "9 de Maio de 1936: O Império retorna a Roma"
9.Alessandro Portelli, "24 de Março de 1944: as fossas Ardeatinas"
O mais legal é que, além de a série cobrir toda a história de Roma, com datas emblemáticas, ela reúne alguns dos maiores historiadores italianos.
posted by Guto 8:39 PM
Fale que eu te escuto:
• • • • •
Terça-feira, Junho 12, 2007
Bom, ligado ao post abaixo, Sabado passado George Bush veio a Roma. A cidade foi totalmente bloqueada. Fui passear no centro à noite, tinha uma reserva em um restaurante, mas foi impossível chegar lá: a polícia de choque não deixava ninguém passar. Os policiais muito educados, esperavam um enorme protesto do tipo "Fora Bush" e No Global. Pois é. Os únicos conflitos que aconteceram foram na estação de trem Tiburtina: A Trenitalia oferece descontos para grupos, mas os manifestantes exigiam viajar de graça, e ameaçavam invadir os trens. A lógica política do argumento deles (viajaram para Roma para lutar por um mundo melhor, e por isso merecem viajar de graça), eu confesso, está além da minha capacidade de entendimento.
posted by Guto 4:43 PM
Fale que eu te escuto:
• • • • •
Uma coisa que eu nunca entendi em Roma é a maneira como o metrô funciona. Um bilhete aqui custa um euro, você compra o bilhete e estampa antes de passar pela roleta e entrar na estação. Mas bem do lado da roleta tem um corredor largo, por onde passam as pessoas que compram bilhetes mensais ou anuais. Bom, em teoria, porque a maioria das pessoas passa por lá. Veja bem, não acredito em determinismos, mas isso aqui não é a Alemanha. Esperar que um romano (ou qualquer ser humano dotado de um raciocínio econômico minimamente funcional) pague um euro podendo passar de graça é algo que me parece, preconceitos à parte, estúpido.
Mas agora isso está mudando. Estão colocando roletas que nem as do metrô de Londres: mesmo que você tenha um bilhete mensal, você tem que passar seu bilhete pela máquina, e depois passar de novo para sair do metrô. É um sistema funcional, eficiente, e lógico. Mas aqui é Roma, e nada que seja lógico funciona facilmente. Quase todo dia tem alguém aos gritos com os guardas, argumentando que é injusto cobrarem dele pela passagem: o bilhete está em casa, ele não sabia que esse sistema tinha sido implementado, enfim. Semana passada tinha uma fila enorme de Ucranianos na frente do metrô, todos desolados porque agora terão que pagar por seus bilhetes.
posted by Guto 4:40 PM
Fale que eu te escuto:
• • • • •
|
 |
Amiano Marcelino

Uma etnografia dos povos barbaros
|
|