Finalmente o curso acabou. Infelizmente, agora estou tentando por meus trabalhos em dia. Nem fotos eu tenho colocado no Flickr! Mas pouco a pouco a gente chega lá. Nesse meio tempo, alguém pode me explicar o que está acontecendo na USP? Em geral, sou contra o que o Serra fez, sequestrando a verba das universidades paulistas, mas o Globo de hoje tem uma reportagem sobre o encontro entre o presidente da UNE e o presidente do Brasil, segundo a qual a UNE ameaça invadir retorias pelo país afora para forçar o governo a dar uma ajuda de custos aos estudantes pobres. A causa pode até ser nobre, mas os métodos...
Finalmente assistimos ontem à noite ao filme An inconvenient truth, o documentário sobre aquecimento global do Al Gore. É muito bom, apesar de a queda de temperatura em Santa Catarina ser ainda mais impressionante. Gore já lançou um novo livro, sobre o declínio da razão na política americana,e já está gerando controvérsias. Com isso mantém-se na mente de todos os eleitores, associado a temas que afetam todo mundo, e que não são presos à agenda de partidos ou da administração Bush. Ninguém quer que ele tenha um plano pro Iraque, por exemplo (algo que é esperado de Barack Obama e HIllary Clinton). Se isso não for estratégia para se candidatar à presidência, é uma tremenda oportunidade perdida.
E parece que na Inglaterra uma improvável aliança de políticos, professores de ensino médio e historiadores conseguiu impedir planos de tirar a História Antiga do GCSE, o vestibular que eles têm por lá: Robert Parker, de Oxford, chamou de um "um triunfo para a democracia" que as crianças vão continuar tendo o direito de estudar essa disciplina.
"I repeat: Jerry Falwell lived on hatred, bigotry, and superstition." Este blog tem um novo herói. Falwell morreu, já vai tarde. Agora faltam Alberto Gonzalez, George Bush, Bin Laden, etcetc
Duas notícias comentadas na coluna Nonsense, do Nomínimo:
1. O dia em que Jesus Cristo partiu para a porrada em pleno centro do Rio;
2. O estuprador que foi assassinadopela jumenta no Ceará.
E o presidente ainda tem coragem de reclamar que não tem nada de importante nos jornais!!!
O Sebastião Salgado resolveu mostrar que sabe mudar de tema e mudou minha opinião sobre a sua obra, completamente. Para ver mais, acesse este site, do Guardian.
Devolvendo puxação de saco, quero agradecer aos nossos leitores do Na prática a teoria é outra que elevaram o número de visitas a este humilde blog. Presidente, só falta mexer neste câmbio, porque o dólar a 2 reais está foda, você assim quebra comigo!
Minha mala ainda não chegou. Estou iniciando a campanha "não vôo de British Airways até minha mala chegar". Será uma campanha mundial que humilhará esta megapotência imperialista, deixando os porcos capitalistas de joelhos. Aguardem. Eles ainda vão precisar do meu dinheiro!
Tenho que admitir, esta notícia de que os Democratas (Brasil, você merece!) são contra o aborto é um belo sinal do que é que o liberalismo significa no Brasil. Está tudo bem desde que não contrarie o direito dos grandes proprietários e a igreja. Amiano é totalmente a favor do aborto. Basta ver o sobrenome das "lideranças" dos Democratas para ver que em alguns casos trata-se de uma questão de segurança nacional.
Vou entrar um pouco na seara do grande presidente, que escreveu um comentário bem legal sobre o fim da "Era Blair" no Reino Unido (sobre a guerra no Iraque e sobre as suas políticas sociais), e dar meu pitaco também. Afinal, veio a calhar de eu ter chegado em Edinburgo na véspera de Blair ter anunciado a data para deixar seu cargo, e com isso fiquei um bom tempo vendo Newsnight na sexta (ah, se o Brasil tivesse um Jeremy Paxman!) e ler o Guardian e vomitar no Independent no Sábado.
Bom, tirando o Independent, que publicou uma primeira página nojenta, com uma montagem formada por palavras acusando o Blair de ter matado acessores, feito outros se suicidarem, ter assassinado o grande líder democrata do Iraque and so on, os jornais britânicos parecem ter concordado que estavam vendo o fim da carreira do maior político britânico de sua geração. Veja bem, Blair chegou à liderança do partido Trabalhista quando este era absolutamente inelegível, e soube apresentar o partido de uma maneira que as pessoas conseguiam entender, sem terem feito curso no sindicato antes. Todo mundo fala disso, mas a gente só entende como isso foi difícil quando vê a força que trabalhistas ainda fazem para vê-lo pelas costas. Isso não quis dizer abandonar políticas sociais que (e eu concordo com o presidente) são extremamente progressistas (ok, razoavelmente), mas sim de dar uma nova identidade ao partido. Como resultado, além de 3 vitórias eleitorais retumbantes, Blair mudou a forma de fazer política no Reino Unido.
Não importa se a estabilidade e o crescimento econômico são resultado da política de Gordon Brown, eu me pergunto que outro primeiro ministro teria o culhão de ter um czar da economia tão forte sem sabotá-lo constantemente, mesmo sendo sabotado ao menos uma vez ao ano. A Economist desta semana faz uma grande avaliação do governo do Blair, e conclui que ele foi o maior político de sua geração (mesmo se incluirmos o Clinton, que deixou os EUA completamente divididos em termos políticos), mas não foi o primeiro ministro que poderia ter sido. Isso só é verdade quando olhamos em retrospecto: as reformas que ele fez no terceiro mandato não eram possíveis no primeiro: uma coisa é dizer que o Labour não vai mais nacionalizar todas as industrias do país (isso só tinha valor simbólico na época), mas outra bem diferente é mexer com educação e saúde e falar em "injetar competição" no serviço público.
O que mais me impressionou foi a reação dos meus amigos e colegas britânicos. Tirando o Iraque, o maior problema deles com o Blair é que ele não foi capaz de ser, por todos os 10 anos, o mesmo Blair que ele foi em 1997. A Lucy disse que no dia em que ele foi eleito, era visível na cara das pessoas em Londres que todos esperavam uma nova era, algo que ele explorou no seu discurso de comemoração da vitória. Em suma, depois de tanto tempo sofrendo com a Tatcher (que, a despeito do que a Economist diz, pode ter feito várias reformas importantes, mas arruinou a auto-estima, os serviços públicos e a educação no país), Blair tornou-se presioneiro das própria esperanças que ele criou. Enfim.
Encontrei, via Attu sees all, um link para este site espetacular:
Flickrvision. A idéia é que usando o google maps você consegue acompanhar ao vivo todas as fotos sendo colocadas no Flickr, em diferentes partes do mundo. O pior é que eu passei uns preciosos 10 minutos por lá.
E já que o assunto é Flickr, esta foto mostra o Coliseu de um ângulo diferente.
Assim que o avião começou a se preparar para aterrisar na Escócia, nós atravessamos uma parede de nuvens, o mundo ficou cinza e a aeronave começou a tremer. Saindo do avião eu percebi que eu estava em outro continente: dos 30 graus ensolarados de Roma para os 13 graus com chuva da Escócia. O aeroporto é tão pequeno, que quando você percebe já está na chuva de novo. No entanto, algo que em Roma seria motivo para caos, na Escócia é parte da vida. As pessoas continuam sorrindo, fazem piada quando vêem seu passaporte brasileiro, falam do tempo, os escoceses são muito simpáticos. Só uma vez eu vi qualquer sinal nas ruas de que o partido nacionalista venceu as últimas eleições, e apesar de durante a conferência vários professores terem comparado o parlamento escocês ao senado romano do final do império, só uma pessoa na audiência reclamou. Ah sim, se você quiser ver fotos do parlamento, uma obra prima da arquitetura moderna (seja lá o que isso significa), dê uma olhada aqui e aqui.
O ônibus que vai do aeroporto até o centro da cidade é barato, leva 20 minutos, o motorista é educado, enfim, uma diferença enorme para Roma. O que eu mais gostei é que as pessoas vivem em Edinburgo como se vivessem em uma aldeia (bom, a cidade É pequena, isso tem que ser dito). Você pode tomar café da manhã em um bar sentado, e vai comer bem - não o espresso e cornetto que servem aqui em Roma - tem vários jornais para escolher, ninguém te incomoda...
...em compensação, a comida...
A comida foi ótima! Fish and Chips (hooray!), que eu não comia há muito tempo, Haggis, comida indiana, enfim. Os escoceses têm a reputação de fritarem tudo, inclusive chocolate (deep fried mars bar), mas eu tinha prometido à Liz que eu não iria comer, e até que me comportei.
É sempre bom escapar um pouco de Roma e ver um lugar organizado pra variar, mesmo que o tempo seja miserável. E o Reino Unido é infalível quando se trata destes dois quesitos, organização e tempo miserável. O que eu mais gosto de lugares como a Escócia e a Irlanda é que as pessoas são tão simpáticas que as vezes eu acho que eles estão querendo me passar pra trás.
Bom, continuo enrolado com o curso, mas pelo menos nos últimos dias aproveitei para fazer algo diferente: fui participar de uma conferência em Edinburgo, sobre Constantinopla na Antiguidade Tardia (pra quem quiser ver, o programa está aqui). Não apresentei nenhum trabalho, só fui rever amigos e aproveitar que a organizadora é uma amiga e eu ia ficar na casa dela.
E que show!! Edinburgo é a cidade mais bonita que conheci no Reino Unido. Foi construída na Idade Média ao redor de um Castelo, que por sua vez havia sido construído em uma localização boa demais para não ser usada militarmente - e arqueólogos atestam isso desde o século IX a.C.! O Castelo domina a cidade, como dá pra ver aqui. Na Idade média a cidade cresceu, mas como os edifícios eram todos construídos dentro das muralhas (que cobria uma área pequena), a cidade ficou famosa por ter edifícios com 7, 8 andares de altura, uma coisa muito incomum na Europa da época. Muitas das ruas ainda existem, e são muito bonitas. Mais tarde, nos séculos XVII-XVIII, a New Town foi construída, ao redor da antiga, e ainda mais bonita do que ela.
Como se isso não bastasse, ainda tem o mar - mas não tive tempo de chegar até lá, infelizmente.
Alguém passou por aqui na semana passada procurando no Google por "O que fazer em Roma em dois dias". Bom, aqui vai minha sugestão (considerando que o cara vai ter dois dias inteiros aqui, e não que vai chegar às 11 da manhã de um dia e sair às 4 da tarde do outro):
Dia 1
- Museu Vaticano (tem fila, tá cheio, mas tem a capela Sistina e o Laocoon - pra que é que você veio a Roma mesmo?) - reserve 3 horas e meia (contando a fila)
- Basilica de São Pedro - 1 hora e meia (fila já incluída)
- Anda até a via da Conciliação, passa pelo Castel Sant`Angelo, atravessa a ponte rumo ao Campo Márcio, come uma fatia de pizza em uma tavola calda.
- Piazza Navona
- San Luigi dei Francesi
- Praça de Sant´Eustachio para tomar o melhor café de Roma
- Pantheon
- Igreja de Santo Inácio
- Via del corso para ver as modas
- Fontana di Trevi (tomar sorvete na San Crispino, via della Panetteria)
- Piazza di Spagna
- Jantar na Via della Croce (fiaschetteria Beltramme, mais caro) ou via delle Carrozze (31, mais barato)
Dia 2
- forum Romano
- Arco de Constantino
- Coliseu (comprar entrada no Palatino, assim tem menos fila)
- Via dei Fori Imperiali
- Piazza Venezia
- Via delle Boteghe Oscure, comer uma fatia de pizza em frente ao Largo Argentina
- Campo di Fiore
- Piazza Farnese
- Atravessar o rio pro Trastevere, terminar o dia lá
Ah, mais uma pergunta técnica: alguém sabe se é possível importar os posts que eu escrevi neste blog para um outro blog? Estou considerando a sugestão do presidente, de mudar pro blogspot, mas não quero perder tudo o que eu já escrevi aqui!
Semana passada teve uma palestra da Lori-Anne Touchette na Escola Britânica, e o que ela disse me ajuda a responder a uma pergunta do Marcelo, a respeito da estátua do Laocoon e do Ulisses encontrado em Sperlonga.
O Laocoon foi encontrada em Roma na área das Termas de Trajano no século XVI, e Plínio (HN 36.37) diz que ela estava em exibição no palácio de Tito (onde isso ficava é um outro problema. Plínio diz que era uma das estátuas mais bonitas em Roma, e que seus escultores eram de Rodes, na Grécia, e seus nomes eram Hagesander, Polydorus, e Arthemidorus. A estátua do Ulisses fazia parte de um grupo de esculturas que adornava uma gruta em Sperlonga (uma cidadezinha costeira, ao Sul de Roma), aonde acredita-se que o imperador Tibério estava banqueteando com amigos quando uma parte da caverna desmoronou e sua vida foi salva por Sejano (mas isso é uma estória longuissima). O que é interessante é que uma das estátuas encontradas em Sperlonga possui a assinatura dos 3 escultores que Plínio mencionou. Inscrições encontradas e Rodes mostram que eles estavam por lá em 42 a.C., mas Lori-Anne acha que eles vieram para Roma logo depois: a cidade tinha sido saqueada por Cássio durante a guerra civil que seguiu a morte de César, em 43 A.C. (o saque: César morreu em 44).
Uma coisa muito legal que fizemos no curso foi levar os estudantes ao topo da coluna de Marco Aurélio. A coluna é um monumento funerário, feita de mármore, e tem cerca de 30 metros de altura. Ao redor da coluna foram esculpidos relevos narrando as batalhas de Marco Aurélio contra diversas tribos germânicas, por volta de 170 d.C. A coluna foi construída (ao que tudo indica) após a morte de Marco Aurélio. Bom, isso todo mundo vê, pois trata-se de um dos monumentos mais famosos de Roma, bem na praça Colonna. O que ninguém vê é que a coluna possui uma escada espiral no interior - o mármore foi cortado para criar os degraus - e com isso é possível subir até o topo do monumento.
Um dos lugares mais estranhos de Roma é a área sacra de S. Omobono. Para quem olha de fora - e a área fica de frente para uma rua super movimentada e em frente a um ponto de ônibus - o lugar é muito confuso (apesar de bucólico, ao menos nesta foto!). O que aconteceu aí é que, quando o governo de Roma estava ampliando a via Luigi Petroselli, na época de Mussolini, encontraram o pódium de dois templos, e parte de um pavimento em travertino (a pedra branca que aparece em alguns lugares na foto acima).
Trata-se de um enorme complexo religioso, formado por dois templos, dois altares (normalmente altares ficam do lado de fora em templos romanos) e dois poços votivos (ou seja, onde as pessoas jogavam oferendas pros deuses: tem foto aqui). Os templos que foram encontrados, construídos com tufa (uma rocha vulcânica), são do século V ou IV a.C., e foram restaurados em diversas fases. O que é mais interessante é que abaixo destes templos um outro templo foi encontrado, e pode ser datado no século VI a.C., ou seja, na época da Monarquia romana. O templo foi identificado como pertencendo a Mater Matuta, que segundo a tradição teria sido fundado por Sérvio Tulio (não, ele não foi pro Botafogo depois disso!). O mais espetacular é a escultura em terracota que pertence a esta fase, representando Hércules e Atena (ou mais especificamente o Hércules fenício e Astarte). As estátuas estão atualmente no museu do Capitólio (sim, tem foto!).
Ok, o problema do limite de fotos no flickr já está resolvido. Tem fotos novas por lá, pra vocês que são voyeurs - mas já vou logo avisando que o tema deste mês é arqueologia. Podem mandar brasa!