Continuando o post abaixo: outra coisa que eu percebi é que para a maioria das pessoas a densidade histórica de Roma é algo impossível de entender. Num lugar onde seres humanos vivem e constroem por mais de 3000 anos, é difícil perceber que uma zona arqueológica vai ter estruturas que são de épocas diferentes, e que um romano do século II d.C. não podia ver coisas do século V a.C. que nós vemos hoje, porque um arqueólogo do século XX d.C. escavou aquela área até um nível mais profundo.
Um bom exemplo é o Coliseu: o maior anfiteatro constrído no Império romano foi construído com o nome de Anfiteatro Flávio, pelos imperadores Vespasiano e Tito (da família dos Flavios), no lugar onde o imperador Nero havia construído, alguns anos antes, o lago artificial que ornamentava seu palácio, a Domus Aurea. Na área do mesmo palácio, mas a uns 500 metros do seu lago, Nero havia mandado construir uma estátua colossal de si próprio, que foi convertida em uma estátua do deus Sol quando ele foi assassinado em 68 d.C. (quando a dinastia dos Flávios chegou ao poder). Décadas mais tarde, o imperador Adriano ordenou que a estátua colossal fosse transportada para o vale onde Tito e Vespasiano tinham construído o Coliseu, e ficou por lá até desaparecer na Idade Média. Ou seja, temos a estátua e o palácio de Nero dos anos 60 d.C.; o Anfiteatro Flávio dos anos 80 d.C.; e a decisão de Adriano de mover a estátua para a zona do anfiteatro nos anos 120 d.C.
O nome coliseu foi dado ao anfiteatro mais tarde, sendo tomado da estátua (colossal), e o anfiteatro também era de proporções colossais. Em outras palavras, é difícil dar sentido a todas estas mudanças, pois nós estamos olhando de uma distância de quase 2000 anos depois dos acontecimentos, então para a gente é fácil comprimir todos estes eventos e dizer que o nome Coliseu veio da estátua de Nero que ficava ali ao lado.
A pergunta que não quer calar é: e isso faz alguma diferença para um turista que está visitando Roma pela primeira e provavelmente última vez? Provavelmente não.
Foi uma manhã muito interessante essa que eu tive hoje. A companhia para qual eu trabalho fazendo tours me disse que Rick Steves estava em Roma e queria fazer um tour pela via Appia, a estrada constrída pelo censor romano Appius Claudius Caecus em 312 a.C. Rick é um dos mais famosos escritores de guias de viagem do mundo, tem um programa muito popular na TV americana, e um bom número dos turistas que eu encontro usam o livro do cara. É realmente impressionante, uma garota no hotel veio dizer a ele que estava hospedada ali só porque ele recomendou, e uma turista que encontramos no caminho estava lá porque ele sugere no livro, é incrível ver o poder que estes caras têm, de definir o que alguém vai ver ou como vai dormir. Na minha vida, só o cachorro do vizinho e a Liz têm tanta influência sobre como eu vou dormir (ou não).
O ´problema é que ontem à noite eu peguei o livro dele, e li da cabo a rabo. Não porque é bom (é bem mais ou menos, superficial demais pro meu gosto), mas porque considero ossos do ofício saber que tipo de informação meus clientes têm quando estão por aqui. Assim é que acabei tendo que preparar um verdadeiro relatório, com todos os erros que ele comete. e olha que não é nada diferente da maioria dos outros guias, e só que nesse caso eu tive a oportunidade de encontrar o autor. Foi aí que deu pra perceber que, na grande maioria das vezes, estes autores estão mais interessados na historinha pitoresca do que em dar infomrações sobre um monumento.
Acabo de receber um email da editora da universidade (OUP, para os íntimos) dizendo que minha tese foi escolhida para publicação na série de História Antiga da editora. Isso vai envolver mexer um bocado na tse, pois não acho que tenha o formato de um livro, propriamente: quero colocar mais um ou dois capítulos, mas pra isso talvez tenha que cortar um dos que já estão lá.
É claro que isso tinha que acontecer: dois dias depois de mandar um artigo para os editores de um livro, meu orientador manda os seus comentários, altamente interessantes, e que fariam muito bem ao meu argumento. O problema agora é convencer os editores que o artigo precisa ser mudado.
Não muito longe de Glanum (ver post abaixo) fica a cidade de Orange, para onde fomos com o objetivo principal de visitar o espetacular teatro romano, um dos melhor preservados em todo o Mediterrâneo (os outros ficam na Turquia e na Síria). Em toda a Europa, é o único do qual a Scaenae Frons sobreviveu inteiramente (mas sem a decoração: apenas uma estátua de tamanho maior do que o natural sobrevive, mostrando o imperador Augusto). O que eu mais gostei do teatro, no entanto, foi a espetacular fachada, uma muralha tão impressionante que o rei francês Luís XIV a considerou "a muralha mais bonita do meu reino". Bom, ao menos é isso o que eles dizem por lá.
Mas Orange não tem só o teatro. Tem também um arco triunfal, provavelmente da época de Augusto. E, principalmente, uma das coisas mais espetaculares que eu já vi. Bom, sem sombra de dúvidas, algo que eu só sabia que existia em Roma: um mapa em mármore, um cadastro das propriedades agrícolas na região, com o nome de cada proprietário, o estatuto jurídico da propriedade, e quanto era devido em taxas. O fragmento nesta foto dá uma boa idéia da lindeza que estas pequenas peças de mármore são: o quanto pode ser estudado sobre aquela sociedade, sua economia, cultura, etc etc. e ainda tem gente que acha que o império romano era menos desenvolvido do que os Estados europeus modernos! Hah!
O principal motivo pelo qual eu estudo a história de Roma é que eu amo esta cidade. Mas quando você pensa nas coisas que vê no Sul da França, você entende porque o império romano é tão fascinante. A área é cheia de ruinas - na verdade a palavra ruína não faz juz ao que se vê por lá. Glanum, por exemplo, é uma cidade fundada por populações locais, no lugar de uma fonte sagrada - o lugar fica perto do mar, e principalmente, perto da rota usada por viajantes que seguiam o curso do Ródano. Gregos ocuparam a área por volta do sec. III BC, e lá você vê algumas estruturas que só um grego poderia construir (um comentário preconceituoso, este): é o caso desta estrutura, por exemplo, usada para defumar vinho - o que fazia com que este durasse mais. Os romanos logo-logo chegaram neste lugar, e se Júlio César ainda teve trabalho nesta área, logo depois de sua conquista a região estava tão bem adaptada à dominação romana (ah, estes franceses, tão rápidos em aceitar um conquistador...), que um aristocrata local adotou o nome de César e construiu um monumento funerário essencialmente romano logo na entrada da cidade.
Um programa espetacular que fizemos nesta viagem foi visitar a região ao redor de Orange, onde existia uma cidade romana (mais sobre isso outra hora). O solo da região é muito especial, e quando os papas se instalaram na cidadezinha de Avignon no século XIV, essa área começou a se tornar uma das produtoras de um dos vinhos mais famosos da França, o Chateauneuf du Pape (na verdade a produção é mais antiga, mas só ganhou força com os papas: veja aqui). O que faz o solo desta área tão especial é que apesar de rochoso (foto!), ele é muito rico, produzindo diversos tipos de uva.
Nós aproveitamos para visitar uma vinícola, La Nerthe, e demos muita sorte porque um tour estava apenas para começar. A visita foi espetacular, pois deu para aprender alguma coisa sobre a produção de vinho - incluindo a importância de uma parede coberta de mofo, e acompanhar todo o processo de produção (maiores informações aqui, e outra foto aqui).
Você sempre quis saber de onde vêm aqueles deliciosos croissants que eles fazem lá na França? Bom, de onde eles vêm eu não sei, mas eu descobri onde eles dormem...
Uma coisa que eu acho interessante das cidades do Sul da França que eu e a Liz visitamos (foi um monte em 2005, e mais algumas deta vez) é que os governos constroem praças com aparência bem moderna, futurística até, mas preservam os prédios antigos ao redor. É o exemplo da praça onde fica a prefeitura em Marselha, e também a praça da República, em Orange (apesar de um dos prédios na foto ser bem moderninho). Isso é muito diferente do que é feito na Itália, onde a praça é o centro da identidade cívica, e deve permanecer como era 200 anos atrás.
Bom, como dito anteriormente...
...eu e a Liz partimos na sexta-feira de manhã para Marselha. Ficamos na casa de um amigo por lá, um grande amigo e colega de quarto do meu querido Totti. Marselha é uma cidade muito interessante. A arquitetura é muito bonita, especialmente a zona do Porto antigo, mas a cidade passou anos sendo abandonada pelo governo, é odiada pela direita francesa por causa do alto numero de imigrantes, é habitada por eleitores de direita (o contradição!!). Mas é muito charmosa, e vem sendo renovada, e parece ter um futuro promissor.
Eu tinha comentado aqui como os moradores do meu prédio ficaram revoltados porque a prefeitura transformou a rua ao lado em rua de pedestres. O que irritou os parasitas é que agora eles têm que ir até a praça ao lado (literalmente, 30 passos) para deixar seus restos. Bom, esta foto é o melhor exemplo (e o mais engraçado) das reações: um morador escreveu na parede do próprio prédio "Rivogliamo i secchioni sotto casa comunisti di merda": "Queremos de volta embaixo do prédio os latões (de lixo), comunistas de merda"!
Isso é porque o governo de Roma tem sido, por mais de 10 anos, um governo de esquerda (seja lá o que isso significa na Itália: Rutelli, o prefeito anterior, é atualmente um ardoroso defensor da Igreja). Praças têm sido restauradas, os museus e monumentos são preservados, escolas são constrídas e uma nova linha do metrô está sendo construída. Isso indica o nível do debate político italiano, onde nos últimos anos um governo não é julgado por ser bom ou ruim, mas por ser "comunista" (i.e., Rutelli, Veltroni, e Prodi) ou "democrático" (Berlusconi).
Uma coisa que me chamou a atenção durante o jogo (veja o post abaixo) é que em nenhum momento foi interrompida a veda de bebida alcoólica: a torcida irlandesa é famosa por ser pacífica, apesar de mandar brasa na cerveja. O mesmo não acontece quando os ingleses vêm aqui: nem os supermercados vendem bebidas, e os bares tê que fechar mais cedo.
Semana passada fui assistir, pela primeira vez, uma partida de Rugby. A Irlanda veio a roma para jogar contra a Itália, na rodada final das Six Nations. Pela primeira vez os irlandeses estavam confiantes, eles precisavam de uma vitória por uma diferença 4 pontos maior do que a diferença entre França vs. Escócia, a outra partida que seria jogada no mesmo dia. Foi um massacre! A Irlanda venceu por 22 pontos de diferença. No final, entretanto, a França arrasou a Escócia por uma diferença ridícula, algo como 27 pontos, e foi campeã, para desânimo da multidão de beberrões que vieram da Irlanda para ver a partida.
Eu sei, eu sei!!! Faz muito tempo que eu não escrevo nada aqui, mas as últimas semanas foram muito agitadas: terminei de escrever um artigo sobre casas abandonadas no final do império romano (Scooby-Doo, cadê você? :-), revi e fiz mudanças substanciais em um artigo sobre o paganismo romano na Antiguidade Tardia, e depois de passar semana passada sofrendo com os irlandeses no estádio olímpico, fomos (a patroa e eu) visitar um amigo no Sul da França. Semana que vem começa o curso de especialização para alunos de pós aqui na Escola Britânica, e eu estarei dando aulas, então este blog estará devagar nos próximos dois meses. Ah, é claro: minha prima, minha tia, e minha avó chegam na segunda que vem, e em Junho vem o Henrique. Enfim, vai estar animado isso aqui.
Eu estava procurando videos do 10000 maniacs no You Tube e achei este que está aí embaixo, da minha música preferida deles, These are days. Foi aí que eu descobri que esse show foi parte da festa de inauguração do governo de Bill Clinton, em 1993. Que diferença...
Meus pais trouxeram os dvds da série Rome, da HBO/BBC. Eu e a Liz começamos a assistir no sábado à tarde. Domingo já tínhamos assistido a metade dos episódios.
I will say a prayer, just while you are sitting there
I will wrap my hands around you
I know it will be fine
We've got a fantasy affair
We didn¿t get wet, we didn¿t dare
Our aspirations, are wrapped up in books
Our inclinations are hidden in looks
Amanhã, 08 de Março, é o dia internacional das mulheres. Esse seria um dia sem graça, se não fosse também o dia da Revolução na Síria. Mas se gente sendo decapitada por militantes fanáticos não é o batsante para você, eu recomendo que no próximo ano você passe o 10 de Janeiro em Benin - é o dia do Voodoo!
Dica de leitura Essa é para quem pretende visitar Roma. As pessoas costumam trazer aquele guia da Folha de São Paulo, outros trazem o Rough Guide e até o Lonely Planet, mas estes são para os incultos que nunca puseram os pés na cidade eterna e não sabem apreciar seu patrimônio arqueológico. Para estes, os happy few, eu tenho uma recomendação prática e economicamente viável. O Topographical Dictionary of Ancient Rome, de Samuel Platner e Thomas Ashby, é o melhor guia para os monumentos da cidade. Também chamado carinhosamente de Platner/Ashby, é de tamanho razoável (apenas 600 páginas), contém referências úteis às fontes literárias e inscrições usadas, e é muito bem escrito. A organização da obra, em ordem alfabética por nome de monumento, rua, e qualquer topônimo relativo à Roma antiga, é particularmente útil para aqueles que já estão cansados de ler autores óbvios como Lívio e Tácito e pretendem adquirir um conhecimento mais aprofundado da cidade. O livro foi publicado originalmente em 1929, mas a Oxford University Press acaba de lançar uma reimpressão anastática, custando módicas 30 libras - uma pechincha.
Na impossibilidade trazer o mais recente Lexicon Topographicum Urbis Romae, publicado em 6 volumes (com índices, addenda e corrigenda), o Platner-Ashby é o melhor companheiro para o viajante mochileiro! Amiano recomenda!