Porra, que merda esse blogger da globo.com. E nao e que os putos deram uma sumida nos meus arquivos? Espero que essa porcaria repareca, porque vou ficar muito puto se tudo o que eu escrevi aqui de 2003 ate hoje tiver sumido!
Semana passada minha mãe e eu fomos aos Museus do Vaticano. Eu confesso que tenho sentimentos ambíguos a respeito deste museu. Por um lado, eu odeio aquele lugar: é caro, sempre está lotado, a exposição dos objetos é muito mal organizada: enfim, não dá pra ver nada direito (um problema irritante quando você tem objetos como essa estátua gigantesca de Hércules, em bronze). Por outro lado, um museu que tem a capela sistina é muito foda. Enfim.
Bom, só para dar uma idéia do problema, fomos na segunda. Chegando lá, a fila era tão grande que fomos embora. Voltamos na terça, e depois de 90 minutos esperando finalmente entramos no museu. O que me fez querer voltar lá foi a exposição organizada para comemorar os 500 anos dos museus, toda centrada na estátua que deu origem à coleção papal e à criação do museu: o Laocoon, ou Laoconte. A estátua representa a morte do sacerdote troiano (link da Wikipedia) e de um de seus filhos (o outro conseguiu escapar), mortos por uma gigantesca serpente.
A exposição foi espetacular porque permitiu pela primeira vez andar ao redor da estátua, olhando todos os detalhes (mais informações aqui). Ela também foi espetacular porque pela primeira vez colocou lado a lado o Laoconte e o retrato do herói grego Ulisses que foi descoberto na vila do imperador Tibério em Sperlonga, esculpido pelos mesmos artistas (foto aqui).
O La Reppublica de hoje tem várias reportagens sobre a crise do governo Prodi. É só na Itália que um governo corre o risco de cair por ser sensível: não vou nem colocar nenhum link porque dá depressão. O problema é que a política italiana deixa qualquer um maluco. Como é que um país tão desenvolvido pode ser tão marcado por brigas, richas, e divisões que unem o pior da época do fascismo e do tempo das comunas medievais! Ao mesmo tempo, as elites aqui não se renovam - por nada neste mundo. Seria interessante saber se o índice de renovação da elite política brasileira é maior ou menor do que a italiana, mas só o fato de que esta dúvida pode ser levantada já mostra a situação não é boa.
Eu estava passeando com meus pais e a Liz perto da Piazza Navona quando de repente vi um sujeito que parecia muito com um amigo dos tempos da UFF. Eu tive que olhar de novo, o cara está com barba, mas não é que era ele mesmo? O JP deve lembrar do Felipe, que estudava antiguidade oriental! Ele hoje em dia está trabalhando no Itamaraty, e está em Roma desde o mês passado. Tem vezes em que só a pura coincidência te faz reencontrar os amigos!
Os pais do Amiano já voltaram pra China. Eu e minha mãe conseguimos comer pizzas em absolutamente TODOS os dias em que ela esteve aqui, 9 dias no total. Coloquei duas fotos familiares no Flickr, uma aqui e a outra aqui.
Os jornais do mundo todo publicaram recentemente artigos sobre um tema que atrai muita atenção de estudiosos sérios: Cleópatra era uma mocréia ou não? Um post interessante no blog da Mary Beard coloca, eu acho, os pingos nos "iii" (aqui). Como meus leitores têm mais o que fazer, eu resumo as opiniões da eminente-porém-nada-gatinha professora: as moedas não tem nada de novo, já foram publicadas em catálogos e existem outras cópias. Existem, aliás, outras moedas mostrando a rainha egípcia. Estas imagens geralmente não tinham muito a ver com a pessoa retratada, pois seguiam alguns princípios estilísticos sobre como um imperador ou uma rainha deveria aparecer. No caso de Cleópatra, existe uma moeda em que ela aparece como um homem: nada a ver com sua macheza, mas com o fato de que a sociedade em que ela vivia esperava ser governada por homens.
Enfim, Cleópatra era feia ou bonita? Isso nós nunca vamos saber, e a questão é politicamente incorreta. A pergunta mais importante é outra: afinal, seriam Júlio César e Marco Antônio, que deram uns pegas na moça, barangueiros ou não?
O presidente anda acompanhando a polêmica despertada pelo programa de governo da Segolene Royal, candidata à presidência da França. Não sei avaliar se é bom ou ruim (me parece pouco realista, mas bem intencionado), mas uma coisa é bom saber: quando gente séria coloca seu programa de governo pra fora, existe debate e troca de idéias.
Longe se vai o tempo em que as pessoas chegavam a esse blog fazendo buscas por "fotos de velho pelado" no Google. Ou pela saudável combinação "merda cara sexo". Nas últimas semanas a maioria dos visitantes deste site (excluindo os suspeitos de sempre) chegou aqui procurando por informações a respeito do corpo de bombeiros e sua história desde a Roma Antiga. Duvida? Clique aqui! Eu fico muito honrado pela popularidade do Amiano junto a esta prestigiosa e nobre corporação. Voltarei a este assunto no dia em que eu tiver mais informações.
Esta semana fui jantar com o pessoal da companhia pra qual eu trabalho. Fomos a um restaurante lá perto de casa que eu não conhecia, L'Isola dei Sardi 2. O restaurante, como o nome diz, especializa em comida da Sardenha: eu comi um spaghetti com vongole e bottarga (ova de peixe moida) e tomate pacchino (aquele pequenininho), que estava excelente, e de sobremesa comi uma sobremesa típica de lá, chamada seadas: queijo pecorino (de cabra, pecora) frito recheado com mel. É uma bomba, muito pesado, mas é delicioso, nem doce nem salgado. A comida da Sardenha é muito particular, pois eles são meio italianos apenas, o resto é uma mistura de todos os povos que andaram por lá: franceses, espanhóis, mouros, árabes, etc.etc. Tem uma parte da ilha que ainda é chamada Barbagie, porque os romanos nunca conseguiram pacificar o povo daquela área (não, não são os irredutíveis gauleses!).
Mas o que me chama a atenção neste restaurante sempre que eu passo por ali, assimo como em outros restaurantes em Roma: La Torricella 2, O'Masto 3, e por aí vai, é que como o algarismo indica, eles não são o primeiro da cadeia. Alguns são franquias, como O'Masto, uma pizzaria razoavelmente boa - ouvi dizer que copiam uma outra, chamada A Ddo' Masto (dialeto Napoletano), que é realmente melhor -mas outros são pequenas trattorias que pertenciam a uma família, abrem uma nova, e no final os filhos brigam e seguem caminhos independentes - tirando o fato de que seus restaurantes têm o mesmo nome e eles fazem o mesmo tipo de comida.O problema é que comida aqui na Itália é um negócio muito sério. Os italianos não gostam de ver estranhos em seus restaurantes, e adoram quando alguém sabe o que está comendo. Assim, se você pede uma pasta com peixe e pede pra por queijo, eles vão olhar feio pra você, porque não é assim que se faz. Mas se você disser que quer os aspargos cozidos em azeite por 7 minutos, e não mais do que isso, eles te olham admirados. Esse é o único país onde adolescentes sabem quando é a melhor época pra comer alcachofras (carcioffi alla romana, alcachofras fritas até ficarem super crocantes).
Por outro lado, isso faz com que a comida seja motivo de discussão e crítica e às vezes brigas familiares. O italiano que estava no jantar com a gente, Carlo, fez cara de nojo quando viu minha sobremesa, e imediatamente começou a fazer piadas "racistas" sobre os sardos. Ele seguia, assim, uma longa tradição, que vem desde a época do império: pelo que me disseram Sêneca dizia que a Sardenha era um lugar tão ruim que até o mel era amargo - estava se referindo ao mel de Corbezolo, um tipo de arbusto que existe na ilha, e que é muito amargo.
No mesmo dia em que eu ia pagar a conta (veja abaixo), eu decidi visitar a Igreja de San Carlo ai Catinari. Eu sempre passo por perto desta Igreja, mas nunca tinha entrado. A Igreja é bonita, o projeto é muito interessante, pois ela parece uma igreja normal, com nave e tudo, mas na verdade tem as formas meio arredondadas. Mas o que me chamou a atenção foi outra coisa: a igreja estava bem cheia pra uma manhã de terça-feira. O mais interessante é que todo mundo sentado ali parecia meio mal arrumado, com mochilas. Eu pensei que fosse um grupo de hippies viajando pela Europa, mas não: eram sem-teto, que esperavam o padre. Assim que esse apareceu, aqueles formaram uma fila em frente a uma escrivaninha. O padre se sentou, abriu uma bolsa, e começou a dar moedas de um euro pra todos que estavam ali.
Eu até controlei meu impulso de me juntar à galera, pois fiquei com medo de não estar mulambento o suficiente pra qualificar pro negócio, e só depois entendi o que estava acontecendo. A igreja tinha o costuma de distribuir café da manhã pros sem-teto que a frequentavam. Algum padre, em algum momento, percebeu que seria mais prático distribuir alguns euros, pois assim as pessoas podem comprar o que quiserem, café, capuccino, sei lá. Isso explica porque é que os politicos nesse país morrem de medo da igreja, e vivem negando aquilo que estavam afirmando no dia anterior, e que irritou um padre. Isso também mostra que não são só os Garotinhos evangélicos do Rio que sabem usar religião e pobreza em proveito próprio...
Cenas Romanas 1 Semana passada eu fui ao banco pagar a taxa de inscrição da Liz no curso de português da embaixada brasileira. Chegando lá, o detetor de metais apitou, e assim que eu coloquei meu computador em um dos escaninhos que ficam do lado de fora, o segurança veio me dizer que não precisava fazer tudo isso, que o detetor sempre apita, etc. Depois, fila. E fila. E quando chegou minha vez, o caixa perguntou se eu já tinha feito algum pagamento naquela agência. Sim, eu fiz um pagamento quando a Liz começou a estudar português, uns 18 meses atrás. Ele digitou meu nome no computador e disse que não achava minha ficha. Isso mesmo, minha ficha. Eu tentei argumentar, que era só um pagamento, eu queria gastar meu dinheiro, mas não funcionou.
Uma lei aprovada no ano passado diz que qualquer pessoa que for fazer uma transação bancária precisa ser cadastrado no banco. É CLARO que eu perguntei porque, ao que o caixa respondeu: porque é o que a lei manda. Bom, o que me irrita não é ouvir esse argumento em um país onde ninguém respeita lei nenhuma. O que me irrita é pensar que nesse país, ao invés de ir pra frente, as coisas ficam amarradas em leis estúpidas como essa. Eu ainda brinquei e disse que se é por segurança contra terroristas, o Bin Laden não deve frequentar agências em Roma, mas o rapaz não viu o ponto da brincadeira. Se está na lei, é porque é sério.
Coloquei no Flickr algumas fotos da visita que fiz semana passada à Domus Aurea, a casa que o imperador Nero construiu após o incêndio de 64 d.C. A maior parte do magnífico palácio foi destruída por seus sucessores, que queriam apagar sua memória da cidade: o Coliseu ocupa o lugar que já foi do lago particular de Nero, por exemplo. A parte que fui visitar foi enterrada pelo imperador Trajano no início do século II d.C., quando ele estava construindo suas termas no centro da cidade. Foi encontrada por sorte, na época do Renascimento, e apesar de ser pequena em comparação com o edifício original, ainda impressiona.
Mas como se trata de Roma, a domus aurea foi fechada no final de 2005, por causa de infiltração. Ela está sendo reaberta aos poucos, e não é possível ver muita coisa - não dá pra ver a sala octagonal, por exemplo, onde pensa-se que Nero organizava seus banquetes (e tinha um teto de madeira que girava, mostrando os movimentos das estrelas pintadas nele) - mas uma coisa maneira é que agora a gente pode subir nos andaimes e ver os afrescos de um dos quartos mais bonitos de perto, a sala do teto dourado. Dá até pra ver alguns dos grafites que visitantes deixaram na época do Renascimento: já foram encontradas as assinaturas de Duhrer e do Marquês de Sade, por exemplo!
Semana passada eu comecei a trabalhar em uma nova biblioteca, a da Escola Francesa. Aqui em Roma existem institutos de vários países, dos mais óbvios, como França e Inglaterra, até os mais inesperados, como a Romênia e o Egito. Eu confesso que nunca entendi o Egito manter um instituto aqui, mas a Romênia antes do Ceaucescu era muito ativa na área de história e arqueologia clássica. Hoje em dia não sei como anda, mas não ficaria surpreso se a biblioteca deles só tiver o clássico "Minha vida de cachorro", escrito pelo próprio.
Pois é, postagem aqui andou devagar mesmo. As desculpas são as de sempre, estou escrevendo um artigo, e semana que vem deve andar devagar também, pois os pais do Amiano vêm a Roma. Até que enfim, já fazia tempo!
E a gripe aviária está chegando, e desta vez parece ser para ficar. É isso o que diz a matéria do Guardian. Justo agora que eu estava começando a pensar que a gente só tinha que se preocupar com o aquecimento global! Que o mundo vai acabar, isso já está certo. Que vai ser logo, os cientistas da ONU já avisaram nesta semana que passou. O difícil parece ser descobrir de quê.
A irmã da Liz esteve aqui com o marido ontem à noite. Incrível: saíram de Dublin às 14:30, chegaram em Roma às 17:30, nós fomos a uma enoteca tomar um vinho, jantamos, e agora de manhã eles já partiram (às 8:15), para pegar o avião e chegar em Dublin a tempo de almoçarem com os pais do Andrew (o marido). Isso é possível por causa da Ryanair, um bilhete comprado com antecedência ou numa promoção pode custar 9 euros. Às vezes custa 0.1 centavo de euro.
Isso representa uma revolução na maneira de pensar as relações de espaço, tempo, e de definir distâncias. Você pode ir para Paris, dormir lá, visitar o Louvre para ver um objeto específico, e voltar no final do dia. É claro que tem inconvenientes: as companhias Low Cost usam aeroportos longe do centro da cidade, os serviços são inexistentes, etc. Mas ainda assim vale a pena, a despeito dos danos para o meio-ambiente.
Tem um artigo legal no Washington Post falando sobre as obras pra linha C do metrô de Roma. Transporte público é um problema sério nesta cidade: os ônibus são irregulares, você espera horas por um bonde e quando ele vem é seguido por outros dois (e o curioso é que todo mundo tenta entrar correndo no primeiro, deixando o terceiro vazio pra mim!). Mas o artigo mostra muito bem como é difícil fazer obras nesta cidade. Toda hora você encontra restos de uma necrópole medieval, de um edifício romano, ou mesmo de um palácio renascentista.
Uma mostra muito legal aqui em Roma se chama "Memórias do subsolo", onde são apresentados objetos descobertos em Roma nos últimos 26 anos. Alguns objetos foram encontrados em locais manjados, tipo o Fórum Romano, mas outros são maneiros porque a descrição do objeto inclui uma referência do tipo "encontrado durante trabalhos para renovação da lina telefônica na rua tal". É isso que faz com que seja absolutamente impossível estar atualizado com a arqueologia desta cidade. Existia uma revista muito boa, Forma Urbis, que funcionava como uma espécie de Veja da arqueologia, com entrevistas, reportagens do que está sendo descoberto, fotos bonitas, etc. Mas como arqueólogos são criaturas egoístas, a revista hoje em dia publica pouca coisa interessante: quase ninguém gosta de publicar suas descobertas lá, pr medo de perder o impacto ou de ter o material roubado. Uma pena.
Tem um artigo muito bom de Tim Wiseman (o nome diz tudo!), professor de História Antiga em Exeter, sobre Júlio César, no Oxford Dictionary of National Biography. O que é maneiro desse dicionário é que ele não fala só de ingleses, mas de qualquer pessoa que tenha influído na vida da Inglaterra: de imperadores romanos a presidentes americanos, e por aí vai. Tem que pagar pra consultar, mas todo dia eles liberam uma biografia de graça.
Tem um artigo excelente do Paul Krugman na New York Review of Books de Fevereiro, sobre o economista Milton Friedman. Friedman morreu há pouco tempo, e foi saudado como um dos grandes economistas do século XX, por intelectuais de direita e de esquerda. Krugman discute a obra de Friedman em tom respeitoso, mas bem crítico, e o artigo é uma boa maneira de entender alguns dos debates mais importantes do século que passou: Keynesianismo, monetarismo, liberalismo, neoliberalismo, etc etc.
O curioso é que Greg Mankiw, um economista de Harvard muito ligado a Friedman, colocou um link para o artigo de Krugman - de quem, eu presumo, ele discorda em gênero, número e grau - mas não emitiu nenhuma opinião. Os comentários (que podem ser lidos aqui), no entanto, mostram como estes debates estão vivos, e como Krugman é amado por uns e odiados por outros (maioria dos leitores de Mankiw).
Para ver o quanto Krugman - um economista brilhante que, segundo o presidente ,se não ganhar o Nobel um dia é só porque é político demais - irrita economistas e a imprensa liberal, eu recomendo um exercício, se você usa o Firefox: vá ao blog da Economist, clique control + F, digite o nome Krugman, e veja quantas vezes ele é citado, normalmente em tom crítico.
Uma dica de site para o final de semana: o site da Ysabelle Brave. É claro que o nome é falso, ela se chama Mary Anne (não informa o sobrenome), é uma gracinha e canta muito. Eu e a Liz passamos um bom tempo noite passada assistindo os vídeos dela - ela canta principalmente músicas beeem antigas, um ponto fraco da Liz - e discutimos se era ela quem cantava de fato. Eu acho que sim, mas não importa: nestes dias de internet e You Tube tudo pode ser falsificado, e às vezes a ficção é melhor do que a realidade. O vídeo abaixo é de Let's Misbehave, uma canção de Cole Porter.