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Quinta-feira, Janeiro 25, 2007

 
Ps: os posts abaixo são muito longos, por isso se você não tem lido essa página constantemente, dê uma olhada na página dos arquivos.

Fale que eu te escuto:

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Hoje é o aniversário do poeta Robert Burns (nascido em 1759), o "bardo nacional escocês". Burns escreveu poemas sobre diversos aspectos da vida escocesa, e é muito popular na Irlanda, Irlanda do Norte e Inglaterra. É claro que meu interesse aqui não é poesia, mas sim a celebração do aniversário, que normalmente envolve festas, jantares, e leituras de sua obra.

Em 2002, logo que eu voltei do Brasil pra Oxford (depois do Natal), meu orientador me convidou para almoçar no seu college. Lá chegando, quando vimos a comida, ele abriu um sorriso enorme e falou "Hoje é dia de Haggis!! É o aniversário de Burns!". Ele então descreveu o tal Haggis, o prato que teríamos pro almoço, e eu não entendi nada. Comi feliz, tinha gosto de carne moída, e até gostei. Achei estranho que todos os fellows do college estavam bebendo whisky, e ele me ofereceu uma dose - é claro que eu recusei, está pensando o quê, quer me testar? A gente ia ter uma reunião logo depois do almoço!

Bom, é claro que depois fui me informar, e descobrir que Haggis, o prato preferido de R.B., consiste de miúdos de carneiro cozidos com cereais diversos, ervas, temperos, tudo dentro do ESTÔMAGO do carneiro! Só aí eu entendi o porquê do whisky - não tem nada a ver com Burns ser escocês, mas é para desinfetar a boca depois de comer essa gororoba! É claro que depois disso nunca mais me aventurei a comer Haggis, apesar de ter gostado do sabor. Mas da próxima vez será com whisky.

Anyway, a BBC tem uma página especial sobre a Burns Night, com muita informação. Para quem quer saber mais sobre Burns, existe uma enciclopédia online aqui, como toda a sua obra. Por fim, para quem quer saber mais sobre a fina iguaria escocesa, tem um verbete na Wikipedia, com receita e história (aqui).

Enquanto eu digitava estas linhas, Terry Wogan, meu apresentador preferido na BBC 2, leu o seguinte poema, de Robert Burns (tirado daqui):

Address To A Haggis

1786
Type: Address

Fair fa' your honest, sonsie face,
Great chieftain o' the pudding-race!
Aboon them a' yet tak your place,
Painch, tripe, or thairm:
Weel are ye wordy o'a grace
As lang's my arm.

The groaning trencher there ye fill,
Your hurdies like a distant hill,
Your pin was help to mend a mill
In time o'need,
While thro' your pores the dews distil
Like amber bead.

His knife see rustic Labour dight,
An' cut you up wi' ready sleight,
Trenching your gushing entrails bright,
Like ony ditch;
And then, O what a glorious sight,
Warm-reekin', rich!

Then, horn for horn, they stretch an' strive:
Deil tak the hindmost! on they drive,
Till a' their weel-swall'd kytes belyve
Are bent like drums;
Then auld Guidman, maist like to rive,
Bethankit! hums.

Is there that owre his French ragout
Or olio that wad staw a sow,
Or fricassee wad make her spew
Wi' perfect sconner,
Looks down wi' sneering, scornfu' view
On sic a dinner?

Poor devil! see him owre his trash,
As feckles as wither'd rash,
His spindle shank, a guid whip-lash;
His nieve a nit;
Thro' blody flood or field to dash,
O how unfit!

But mark the Rustic, haggis-fed,
The trembling earth resounds his tread.
Clap in his walie nieve a blade,
He'll mak it whissle;
An' legs an' arms, an' hands will sned,
Like taps o' trissle.

Ye Pow'rs, wha mak mankind your care,
And dish them out their bill o' fare,
Auld Scotland wants nae skinking ware
That jaups in luggies;
But, if ye wish her gratefu' prayer
Gie her a haggis!

Fale que eu te escuto:

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Um fenômeno que me interessa cada vez mais é o modo como os romanos manipulavam e reajustavam os vestígios de seu próprio passado. Passei parte do mês de Setembro escrevendo a resenha de um livro sobre o assunto, sobre a prática de damnatio memoriae, ou seja, de destruir, adulterar ou mutilar monumentos. O livro no caso é sobre retratos imperiais.

Durante minha visita ao Museu nacional de Ravena, no entanto, vi um objeto muito interessante: uma estela funerária pagã do século I d.C., que foi muito alterada para ser reutilizada por um cristão no século IV d.C. Dá pra ver na foto como essa adaptação aconteceu: o retrato da pessoa falecida foi apagado, as letras D M, significando "para os deuses do outro mundo" foram apagadas, assim como parte de um nome. O texto cristão foi inscrito logo embaixo, sems eguir nenhuma linha reta, e com letras muito irregulares. É quase como se o cristão que morreu no século IV quisesse apagar todas as associações pagãs deste monumento, mas preservando (mesmo que adulterada) a memória do morto.

Não deixa de ser muito mais nobre do que o tal do estilista Ronaldo Ésper, que foi preso roubando vasos de túmulos em um cemitério em São Paulo...

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Quarta-feira, Janeiro 24, 2007

 
Domingo de manhã eu estava sozinho e aproveitei para visitar uma das minhas Igrejas preferidas em Veneza: I Frari. A coisa mais interessante da Igreja, na minha opinião, é a ábside, demarcada por um painel de madeira e super decorada. Mas chegando lá encontrei um grupo de crianças, com a professora explicando a pintura de Ticiano que decora o lugar, a Assunta, de Ticiano. A pintura é muito importante: com ela Ticiano se afirmou como maior nome da pintura Veneziana de seu tempo (século XVI).

A professora contou então uma estória que eu não conhecia: Ticiano não pintou em uma tela, mas em madeira. Mais especificamente, em tábuas demadeira colocadas horizontalmente, pois a pintura é muito grande. Assim, a pintura foi erguida como parte integral do monumento que decorava a ápside, e foi isso oq eu a salvou: quando Napoleão conquistou Veneza, ele cortou várias telas de suas molduras, e levou-as para Paris. Isso não pode ser feito com a pintura de Ticiano, que por isso ficou em seu lugar original.

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Série estacionando na Itália

(Porque italianos podem ter criado a Ferrari, mas não sabem estacionar)

Estacionamento reservado para a diretoria, em Ravena

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Série túmulos de gente boa

(O objetivo desta série é mostrar que gente boa também morre)

Dante Alighieri

Dante foi enterrado em Ravena, e não em Florença.

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Durante a viagem aproveitei para passar uma noite em Rimini: os pais da Liz estavam por lá, onde foram para participar de uma feira de sorveteiros. Eu não fui à feira, mas na manhã do Domingo, antes de voltar a Ravena, aproveitei para sair cedo e visitar a Igreja de São Francisco, também (e mais apropriadamente) chamada Tempio Malatestiano.

A Igreja foi projetada por Leon Battista Alberti, um dos maiores nomes do Renascimento Italiani na arquitetura, e é realmente incrível. A Igreja não foi bem vista pelo papa, porque Sigismundo Malatesta, que pagou pela obra, era um líder militar famoso por seus crimes: estupro, sequestro, assassinato político, etc etc etc. (curiosamente (?) a home pageda cidade não menciona nenhum deles). A Igreja é cheia de símbolos de Sigismundo, e de sua amada, Isota: o túmulo de Sigismundo (eu disse SIGISMUNDO) está logo na entrada, e em toda parte se vê o símbolo do casal,as letras S e I.

Sigismundo podia ser um monstro, mas não era muito diferente dos outros líderes de seu tempo. O líder de Verona se chamava Cangrande, o que pode ser traduzido por "cachorrão" (ok, soa ridículo), e os Médici em Florença e mesmo os papas de Roma eram todos maus caráter. Mas tinham bom gosto: o Tempio Malatestano é decorado com este crucifixo, provavelmente pintado por Giotto, e além de um belo afresco de Piero della Francesca.

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Rimini é hoje em dia uma cidade bem desinteressante, cheia de turistas no verão, por causa das praias. O centro histórico é bem bonito, tem um arco dedicado ao imperador Augusto, e uns poucos restos do Forum, onde Júlio César fez seu primeiro discurso depois de ter atravessado o rio Rubicão, invadindo a Itália e iniciando a guerra civil que o levou a controlar Roma.

Algumas coisas não mudaram desde a época em que a cidade era dominada por um criminoso estuprador: hoje em dia a vida noturna é famosa pela prostituição e Silvio Berlusconi fez fortuna cantando nos restaurantes daqui.

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O problema de viajar para ver coisas é que, por mais que você aprenda, você acaba convivendo pouco com pessoas. É a mesma coisa de viajar em casal, ou com amigos. Isso serve muito bem para alguém como eu, que não gosto de sair por aí interagindo com pessoas que não conheço bem. Ao mesmo tempo a gente perde muito com essa tal de globalização, e o maior número de turistas visitando lugares tipo Veneza. É um saco ter que se comunicar com um garçom que fala inglês, que tenta fazer gracinhas, e que tenta apresentar uma imagem da cidade que não existe, a não ser no estereótipo dos viajantes. Viajar assim só serve para confirmar nossos preconceitos.

É por isso que eu gosto de trens: você vê pessoas interagindo, não só pessoas do local, mas também turistas que tem que lidar com o fato de estarem longe de casa. A maioria dos turistas na Itália viaja de Eurostar, porque apesar de mais caro é muito mais rápido, mas é só num trem regional, um verdadeiro parador, que você vê todas as pessoas suspeitas que andam de trem: um cara ficava andando de um lado pro outro, com medo do controlador pegá-lo sem o bilhete. O que aconteceu: o ônibus estava parado, o cara tentou argumentar que não ia viajar, só estava procurando um amigo, mas o controlador mandou ele descer. No trem lotado, enquanto o casal do meu lado brigava, fazendo balé com as mãos, o filho deixava a mãe carregar todas as bolsas no colo, enquanto ele jogava videogame. Agente vê muito mais da Itália assim.

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O ponto alto da visita a Ravena foi a basílica de San Vitale. A Igreja foi construída no início do século V d.C., pelo bispo Ecclesius, foi financiada pelo banqueiro Juliano Argentário, e foi inagurada pelo bispo Maximino, celebrando a reconquista da Itália pelas tropas do imperador bizantino Justiniano - o bispo e o imperador aparecem em um dos mosaicos mais famosos de toda a Itália, perto do altar. Juliano Argentário foi um dos financiadores da guerra, o que sugere que lá, como cá, financiar guerras era um bom negócio!

A igreja é espetacular porque, além da decoração, possui uma arquitetura espetacular.


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Enfim, Ravena!!!

Ravena foi um porto importante por grande parte da história do Império Romano, depois disso foi capital do Império do Ocidente durante parte do século V d.C., foi capital do Reino Ostrogodo (c. 476-535), do exarcado bizantino da Itália, foi importante centro de peregrinagem na Idade Média, modelo para artistas de diferente períodos, enfim: um espetáculo. A cidade foi pesadamente bombardeada na II guerra pelos Aliados, mas ainda assim seus mais importantes monumentos sobreviveram: basílicas, mausoléus, batistérios.

Uma parte do centro histórico também sobreviveu bem, e lá, como na Inglaterra, as pessoas andam de bicicleta por todos os lugares. Uma coisa legal é que turistas podem alugar bicicletas para andar no centro da cidade: basta depositar uma moeda de um euro e pegar uma destas bicicletas, disponíveis em vários pontos.

Chegar em Ravena de trem é uma moleza, basta trocar de trem em Bologna, tem trem toda hora e custa 3 euros (!!!).

Ps: sim, as bicicletas são feias. O motivo eu acho que é lógico: se você roubar uma bicicleta destas, será identificado em qaulquer parte da Itália!

Ps2: Não, Felipe, eu não aluguei nenhuma bicicleta - a cidade é muito pequena, não há necessidade!


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A imprensa inglesa falou muito, na semana passada, a respeito do caso da participante do Celebrity Big Brother, que está sendo transmitido pela BBC 4 (link aqui: clique se tiver coragem!). Uma das participantes, Jade Goody, fez comentários sobre outra participante, uma atriz indiana cujo nome não sei, em tons racistas. A imprensa, os comentaristas, todo mundo começou a debater se a Inglaterra é racista ou não, e até o Gordon Brown, possivelmente o próximo primeiro ministro, entrou na parada.

Alguns comentários são do tipo: Jade é feia, gorda, grossa, mal educada, e se sentiu mal diante de uma estrangeira linda e inteligente. Enfim, o quiprocó foi de má sociologia a psicologia de botequim. Agora até a Mary Beard, professora de estudos clássico em Cambridge, entrou no assunto, em seu blog, falando sobre racismo na Antiguidade. Racismo é um tema de discussão muito bom, porque toca em uma série de problemas envolvendo a cultura de um grupo ou um povo, como a sociedade funciona, etc. Todo mundo tem uma opinião sobre isso, e sobre como o governo-sociedade deve lidar com isso.

O que as pessoas se esqueceram, no entanto, é que uma das pré-condições para participar de um Big Brother é ser um completo idiota. Ou seja, não~dá pra levar a sério. E se alguém disser que por isso mesmo é que eles representam a "opinião média do país" (sociologia da Globo), basta dar uma olhada nos participantes, ver quem são, de onde vêm, pra sacar que aquilo ali tem a ver com a imagem que a televisão e os patrocinadores querem vender. E se alguém disser que até que alguns participantes são bem inteligentes, eu re-afirmo: podem até ser espertos. Big Brother inteligente é uma contradiçao em termos (eu ia dizer oxímoro, mas pode ter um deles lendo isso aqui).


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Domingo, Janeiro 21, 2007

 
Estou em Bolonha, neste momento, esperando o trem para ir para Veneza. Viemos para Bolonha na sexta a noite (hoje nao tem acento!), e sabado de manha cedinho fui para Ravena. O lugar e espetacular, a cidade foi capital do Imperio por parte do seculo V d.C., e depois sede do reino Ostrogodo de Teodorico. Mais tarde foi capital do governo bizantino na Italia.

As Igrejas sao espetaculares, com os mosaicos mais lindos que eu ja vi. Tirei fotos de varios, e de varios monumentos, e vou coloca-los no Flickr assim que voltar pra Roma. A noite eu fui para Rimini, a cidade natal de Federico Fellini. So passei a noite la, mas hoje de manha antes de ir para a estacao de trem ainda deu tempo de visitar um arco dedicado a Augusto e o templo Malatestiano, uma das Igrejas mais importantes do renascimento italiano. Depois de passar o dia em Ravena de novo, vim para Bolonha, e daqui para Veneza. Amanha, Padua, e na terca uma visita detalhada a Basilica de Sao Marco, em Veneza. De la, para casa.

Inte!!

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Sexta-feira, Janeiro 19, 2007

 
Estou de partida da biblioteca, daqui a alguns minutos. Vou-me embora pra Ravenna, pos lá sou amigo do Imperador. E pra vocês que ficam, Last Train to London, ELO:


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Quinta-feira, Janeiro 18, 2007

 
Mal posso esperar pela minha visita a Ravena. A cidade foi capital do Império Romano no século V d.C., e dos Ostrogodos e dos Bizantinos. É cheia de monumentos tardo-antigos. Rimini possui um arco triunfal dedicado a Augusto, e uma Igreja planejada por Alberti, uma das obras primas do Renascimento. Semana que vem terei muito o que contar!

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Programação para o final de semana:
Sexta à noite: Roma-Bolonha.
Sábado de manhã: Ravena, passo o dia em Ravena, durmo em Rimini.
Domingo: dia em Ravenna, durmo em Veneza.
Segunda: Veneza
Terça: Veneza-Roma, 10 euros incluindo taxas pela Ryan Air.
É mole?

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Hoje estou num dia arqueológico - muitas fotos no Flickr.

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Na terça, tive um tour em Óstia, a cidade-porto de Roma. Óstia foi abandonada durante a Idade Média, e foi coberta pela deposição de sais do rio Tibre. Isso fez com que a cidade fosse bem preservada. Isso permite ter uma visão fantástica da vida romana, de bares (aqui e aqui) ao teatro, dando uma visâo mais real do que era a vida numa cidade antiga. Um bom exemplo é esta inscrição, encontrada em uma casa. Significa "aqui está enterrado um raio divino", uma fórmula usada para marcar lugares atingidos por relâmpagos (um presságio de que alguma coisa não estava muito certo).

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No domingo, nós fomos visitar uma excavação que ainda está em andamento, embaixo do Palazzo Valentini, em Roma. Foi espetacular: a guia era uma gatinha e a segurança uma gata (só em Roma!). Mas além disso, vimos duas casas romanas do século II d.C., construídas no centro da cidade, bloqueando uma rua, e que foram redecoradas no século IV - o tipo de coisa que eu estudei na tese. O problema é que como os resulados ainda não foram publicados, não pude tirar fotos. Em compensação, aqui vai uma foto de um altarque ainda não foi publicado!

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Final de semana passado foi dedicado a visitas arqueológicas. No Sábado, fomos visitar a Necrópole da via Triunfal, no Vaticano. Essa necrópole (na verdade são duas) foi excavada em dois momentos, nos anos 50 e depois no final dos anos 90, e foi aberta para visitas. Tem que reservar, o que é um saco: eu reservei em Dezembro, e só tinha lugar agora em Janeiro. Mas vale a pena. A necrópole foi usada do século I d.C. ao século IV. Ali foram enterrados não só pessoas humildes, como também membros da elite romanae até mesmo um escravo de Nero, que trabalhava no teatro de Pompeu.

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Alguém viu o Celso por aí?

Fale que eu te escuto:

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Sexta-feira, Janeiro 12, 2007

 
O que foi maneiro desta visita ao túmulo de São Paulo foi o fato de que ele fica dentro da Igreja, numa Cripta que pode ser vista por todo mundo, mas permanece fechada. Quando a gente entrou lá e as luzes foram acesas, formou-se uma multidão do lado de fora, velhinhas, crianças, beatas, todos de joelhos, rezando - eu até pensei que fosse para mim...

Fale que eu te escuto:

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Os jornais recentemente anunciaram a descoberta do túmulo de São Paulo, em Roma, e o fato de que a Igreja anda pensando em abri-lo. Bom, é clarro que uma notícia destas gera o maior frisson. Assim, no fechar do ano passado, quando o pessoal do departamento de arqueologia aqui da Escola Britânica falou que o cara que escavou a Basílica de San Paolo, perto lá de casa, ia conduzir uma visita ao lugar, é claro que fiquei animado.

Bom, para falar a verdade, a visita foi muito interessante do ponto de vista arqueológico, mas perdeu todo o charme. A coisa interessante que descobriram foi o nível do pavimento da segunda basílica (construída por volta de 390 d.C.), provando que era uma basílica funerária, ou seja, o pavimento era feito das lápides dos túmulos das pessoas que foram enterradas lá. Também acharam parte das fundações da basílica original, da época de Constantino (c. 330 d.C.).

Mas o que todo mundo queria ver, o túmulo de São Paulo, foi uma decepção. Tem uma foto no flickr. O que dá pra ver é um sarcófago do século IV d.C., ou seja, de quando a basílica foi construída. Nem os arqueólogos do Vaticano pensam que São Paulo está enterrado ali: como o cara falou, aquele é o túmulo em que os romanos antigos achavam que o sujeito estava enterrado, isso não quer dizer que seja o cara mesmo. Se a fé remove montanhas, porque ela não iria transformar um qualquer em santo?

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O post abaixo foi um desabafo de um desesperançado.

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Não dá para acreditar no apoio do PSDB ao Arlindo Chinaglia. Não dá para acreditar.

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Quinta-feira, Janeiro 11, 2007

 
O Corriere della sera de ontem teve uma notícia interessante: uma associação de moradores do Trastevere, uma das áreas mais tradicionais de Roma, decidiu pressionar a prefeitura pela reforma do excubitorium da 7a coorte dos vigiles, um dos quartéis-generais dos bombeiros da Roma antiga. É possível visitar o lugar com autorização especial, mas hoje o que as pessoas vêem é apenas o que está acima do nível da rua (os edifícios são muito bem preservados, e estão uns 15 metros abaixo do nível moderno), ou seja, restos de uma parede de tijolos da época do Império. Atualmente um barbone (sem teto romano) vive ali.

Essa associação organizou um site na internet, explicando seus planos (têm umas fotos, mas não são muito boas ' pode ser lido em inglês), e o interessante é que agora receberam um apoio de peso, o corpo de bombeiros de Nova Iorque. Os americanos se tocaram que essa é uma boa iniciativa para a memória dos bombeiros, e jogaram seu peso político em apoio da associação. Explico: bombeiros de Nova Iorque, desde o 09.11, são tidos como heróis aqui na Itália, e isso deve dar bastante publicidade para esse grupo.

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Eu preciso admitir, eu nunca fui um grande leitor de Cícero. Cícerofoi um dos maiores políticos e escritores romanos, viveu durantes os últimos anos da República, quando Pompeu e Júlio César estavam lutando pelo controle de Roma, e mais tarde quando Augusto e Marco Antônio controlaram a cidade. Mais importante de tudo, ele escreveu muito, quem sabe até demais.

Eu sempre tive antipatia por ele porque, pra falar a verdade, costumava achá-lo um chato, que falava demais. E não fui só eu: quando Cícero foi executado por ordem de Marco Antônio, suas mãos e sua cabeça foram cortadas e expostas em Roma, no Forum Romano. Enfim. Minha opinião começou a mudar, no entanto, quando li o livro Imperium, de Robert Harris - um daqueles livros da categoria "má literatura, mas diverte e informa". Cícero aparece como um cara maneiro, obcecado pela política, apaixonado por sua filha, bem mais humano do que a imagem de gênio e estadista do que seus biógrafos teimam em fantasiar.

Bom, neste momento estou lendo De Domo Sua, um discurso que ele escreveu para ser lido em Roma, perante o colégio de sacerdotes. Cícero havia sido exilado pelo tribuno da plebe Clódio, que demoliu sua casa no Palatino e construiu ali um templo para Liberdade. Cícero, no discurso, apresenta argumentos para reaver sua casa, o que exigiria demolir o templo. O discurso é longo, e em pelo menos duas ocasiões eu cochilei, mas uma coisa que deve ser reconhecida é que o cara sabia insultar alguém: acusa Clódio de ter relações impróprias com seus amigos, chama de ignorante, crime encarnado (esse é pro Celso!). Mas meu preferido é quando ele diz que Clódio espalhou o rumor de que Cícero se achava Júpiter, e que sua irmã era Vênus. Ao que Cícero responde que pior do que a calúnia de atribuir a ele tamanha soberba (de se achar Júpiter), é a ignorância de achar que Vênus era irmã de Júpiter (ela era filha).

Isso me fez me lembrar meu tio Paulo Henrique me contando que uma vez ele ouviu no radio uma discussão na Câmara Legislativa do Rio, na qual um deputado chamou o outro de "Descalcificado". Quando o outro disse "O senhor é um analfabeto, porque queria dizer desclassificado", o primeiro respondeu: "Não, eu queria dizer descalcificado mesmo, porque sua mulher já dormiu com tantos, mas até hoje náo lhe apareceram os chifres!"

Políticos brasileiros eram muito bons em insultos, por exemplo quando Brizola chamou Lula de "sapo barbudo", ou quando Lula chamou todos aqueles que agora são seus amigos de ladrões, etc. Faz parte do jogo, mas é interessante como a gente sempre se esquece disso, e a imprensa reclama que o nível da discussão caiu muito de tempos pra cá.

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Uma das coisas maneiras de ir a Florença é que com o Eurostar você paga 30 euros e chega lá em 90 minutos. Ou seja, no tempo em que o Fluminense empata com o Volta Redonda, você vai da cidade mais bonita do mundo até a segunda mais bonita!

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Totti ainda mostrou seus dotes de historiador da arte: em Florença, analisando uma obra no Tesouro da Igreja de Santa Croce, o cara identificou o autor do design do inferno: foi o Walt Disney!!!

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Ok, vamos às aventuras do Amiano: Totti esteve por aqui. Ou será que foi o Romário? O fato é que em poucos dias o cara até mudou o nome do Coliseu!!!

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Feliz Ano Novo!!!

Cá estou, de volta a Roma, e já coloquei algumas fotos no Fotolog: link aqui

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Amiano Marcelino
   
Uma etnografia dos povos barbaros